Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Na noite de 22 de fevereiro, a Arena di Verona tornou-se palco de um gesto que ultrapassa a simples celebração esportiva: Gabry Ponte, um dos DJs italianos de maior projeção internacional, assinou um momento que conjugou música, memória e reconhecimento coletivo durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Milano Cortina 2026.
Depois da tradicional parte protocolar da Victory Ceremony, com a proclamação dos pódios e as formalidades Olímpicas, a organização reservou um tributo explícito aos milhares de pessoas que formaram a infraestrutura humana do evento — os voluntários. À frente deles esteve Mario Gargiulo, 90 anos, cujo histórico pessoal faz a conexão entre gerações: ele foi voluntário nos Jogos de Cortina d’Ampezzo em 1956 e voltou a ser presença simbólica nesta edição.
Os voluntários entraram em cena e se dispuseram coreograficamente para formar o número “26”, referência direta aos Jogos Milano Cortina 2026. Foi uma imagem simples e potente: rostos e corpos compondo o algarismo que sintetiza o evento, fazendo da estaticidade da cifra um retrato da participação coletiva.
Sobre essa cena, Gabry Ponte conduziu um set que incluiu a emblemática faixa “Blue – Da Ba Dee”, de Eiffel 65, reutilizada aqui como trilha para a celebração do trabalho voluntário. A escolha musical não foi apenas um apelo à festa; tratou-se de uma tradução cultural — a música eletrônica europeia que ganhou vida nas pistas também pode servir como veículo de reconhecimento cívico.
O episódio merece ser lido em duas frentes. Primeiro, como agradecimento explícito: reconhecer publicamente os voluntários é reafirmar que megaeventos dependem de tecido social e não apenas de infraestrutura técnica. Segundo, como gesto de memória: a presença de Mario Gargiulo cria uma linha simbólica entre 1956 e 2026, lembrando que a experiência olímpica italiana é construída em camadas históricas.
Em termos culturais, a performance de Gabry Ponte no encerramento reafirma um traço recorrente nas cerimônias contemporâneas — a busca por símbolos que encurtem distâncias entre protocolo e público. A música popular, quando bem utilizada, transforma uma homenagem em experiência coletiva. A imagem dos voluntários formando o “26” ficará, com certeza, como um dos quadros identitários desta edição dos Jogos.
Mais do que fechar um ciclo competitivo, a cerimônia teve o efeito de expor a economia afetiva do evento: memórias, gestos e pequenos rituais que legitimam uma Olimpíada enquanto fenômeno social. Em tempos de debates sobre custos e legados, foi relevante ver a narrativa voltar-se para a comunidade que, de fato, faz o espetáculo acontecer.
Ao encerrar a noite com batidas que ressoaram além do entretenimento, Gabry Ponte não só animou a plateia: ofereceu uma leitura cultural do papel dos voluntários, convertendo a cerimônia de encerramento em um espaço de reconhecimento e memória coletiva.





















