Por Marco Severini – Espresso Italia
Num novo capítulo da guerra de narrativas e de aço entre Moscou e Kiev, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky voltou a elevar o tom, afirmando à BBC que Putin já iniciou a Terceira Guerra Mundial. A declaração, carregada de simbolismo e de pressão diplomática, convida o Ocidente a intensificar a resposta militar e econômica contra o Kremlin para forçar uma retratação.
Do outro lado do tabuleiro, o porta-voz do Kremlin e o próprio presidente Vladimir Putin deram resposta firme. Em cerimônia de entrega de condecorações na ocasião do Dia dos Defensores, Putin afirmou que a Rússia “está lutando pelo seu futuro, pela independência, pela verdade e pela justiça”. A retórica moscovita busca enquadrar o conflito como defesa existencial, deslocando o centro do debate para valores e soberania.
Enquanto a guerra de palavras prossegue, a realidade no terreno segue brutal: Kiev foi alvo de ataques com mísseis hipersônicos e balísticos, numa escalada técnico-militar que complica quaisquer janelas de negociação. O Kremlin tem reforçado que ações militares são resposta a ameaças — narrativa que colide frontalmente com o diagnóstico ocidental sobre agressão e violação da ordem internacional.
No plano diplomático, a cena europeia está tensionada. Amanhã o Conselho de Assuntos Exteriores da UE deliberará o 20º pacote de sanções contra a Rússia, mas a votação enfrenta um obstáculo prático: Budapeste anunciou intenção de bloquear o novo conjunto punitivo. A fragmentação interna da União Europeia revela alicerces frágeis da diplomacia coletiva, que arrisca perder eficácia se o eixo de influência mudar por decisões unilaterais.
Paradoxalmente, enviados norte-americanos — citados como Witkoff e Kushner — dizem-se confiantes de que um novo ciclo negocial poderá ocorrer em poucas semanas, possivelmente em Genebra. Fontes indicam expectativa por um novo encontro em 10 dias a três semanas; entretanto, o ponto mais sensível permanece o Donbass. A Rússia reivindica longamente as áreas de Donetsk e Lugansk; Kiev ainda controla cerca de um quinto do território de Donetsk, e qualquer proposta de cessão é vista por Zelensky como uma ferida política e social que poderia dividir a sociedade ucraniana.
Do ponto de vista estratégico, observamos um jogo em camadas: há a pressão militar imediata, a disputa de narrativas e a luta por apoio internacional. Zelensky procura ampliar a coalizão ocidental e transformá-la em pressão máxima; Moscou responde consolidando a narrativa de defesa existencial. O resultado é um redimensionamento das fronteiras invisíveis do poder, onde cada movimento brasileiro, europeu ou norte-americano altera o equilíbrio no tabuleiro.
Em termos práticos, o desfecho das próximas semanas dependerá de três vetores: coesão das potências ocidentais (especialmente na UE), capacidade russa de manter pressão militar sustentada e disposição ucraniana para negociar concessões estratégicas. Sem coesão no Conselho Europeu e sem um mecanismo claro de segurança que vincule garantias militares a compromissos políticos, o risco de escalada persiste — e com ele, a possibilidade de que o conflito transborde em arenas mais amplas.
Num mundo de tectônica de poder ativa, cada declaração pública e cada movimento diplomático são peças num xadrez de alta tensão. Cabe aos atores europeus e atlânticos reconstruir alicerces de coordenação se desejam conter as forças que apontam, hoje, para uma conflagração de alcance incerto.
Nota: informações com base em relatos públicos, declarações oficiais e reportagens de agências internacionais sobre os últimos desenvolvimentos no conflito entre Rússia e Ucrânia.





















