Por Marco Severini – Espresso Italia
Na esteira da proposta anunciada recentemente, o controverso Board of Peace, criado por Donald Trump, passou a ocupar o centro do debate geopolítico sobre a reconstrução de Gaza. A iniciativa — com Trump anunciado como presidente vitalício e poderes amplos sobre composição e agenda — reúne 17 membros registrados publicamente, entre os quais nomes como Tony Blair, Jared Kushner e Steve Witkoff, e não inclui representantes eleitos palestinos.
Segundo o esboço público do plano, os Estados Unidos aportariam cerca de US$10 bilhões e coordenariam uma Força de Estabilização composta por aproximadamente 20 mil militares de múltiplos países, acompanhada por um contingente local de cerca de 12 mil policiais. O Board of Peace é apresentado como órgão supervisor cuja autoridade, em termos práticos, se sobreporia a mecanismos tradicionais multilaterais — uma arquitetura que lembra, nas suas formas, modelos de mandato e administração externa.
Perguntado sobre a proposta, o jornalista israelense Gideon Levy descreveu o plano como “totalmente desconectado da realidade”. Levy sublinhou que qualquer iniciativa de reconstrução que ignore a situação material e política da população palestina e que não desfaça o bloqueio e as restrições impostas à Faixa de Gaza continuará a produzir soluções formais, porém estéreis. Em termos claros: a reconstrução será apenas papel se as vias de entrada de bens, pessoas e serviços permanecerem controladas externamente.
Há críticas incisivas quanto à composição do grupo gestor: dos sete membros fundadores, todos próximos a Trump e com posições pró-Israel, alguns têm interesses imobiliários e financeiros que apontam para um potencial conflito entre lucro privado e interesse público. A ausência de representantes palestinos constitui, para analistas como Levy, uma falha estrutural que mina a legitimidade política do plano e o transforma mais numa operação de influência do que num genuíno projeto de recuperação humanitária.
Do lado palestino, o movimento Hamas repudiou a iniciativa: condicionou qualquer negociação à cessação imediata das operações militares israelenses na Faixa, à remoção do bloqueio e ao restabelecimento de direitos básicos para a população. Na prática, a posição de Hamas reafirma que não haverá aceitação de um desenho de governança que mantenha intactos os mecanismos que, na percepção local, equivalem a um cerco permanente.
Do ponto de vista da diplomacia estratégica, estamos diante de um movimento que redesenha linhas de influência sem alterar, no imediato, as fundações reais da situação em Gaza. Se o Board of Peace for concebido como um ator com autoridade executiva e sem inclusão palestina, corre o risco de criar um novo capítulo de tutela externa, com tensões legais e políticas perante organismos multilaterais e atores regionais.
Ao observar o tabuleiro, é evidente que o projeto atua como um lance ambicioso: pode ganhar terreno se aliados-chave aderirem e se houver capacidade real de abrir corredores humanitários e políticos. Caso contrário, será um movimento que, embora vistoso, permanecerá isolado — uma arquitetura pretensamente restauradora montada sobre alicerces frágeis.
Em resumo, como delineado por Gideon Levy e confirmado pelas reações regionais, o plano de reconstrução corre o risco de ser mais uma peça de poder do que uma resposta efetiva às carências da população de Gaza. E no grande xadrez diplomático, ações descoladas da realidade local raramente sobrevivem ao primeiro cotejo com a resistência política e humanitária.





















