Por Marco Severini — Em 2011, o Irã demonstrou um movimento tático inédito: com suporte tecnológico de provável origem russa, conseguiu capturar eletronicamente e forçar o pouso de um drone avançado americano, o RQ-170 da Lockheed Martin. A aeronave, comparada às capacidades stealth dos B‑2, foi exposta como troféu. Esse episódio não é uma curiosidade isolada: é uma pista no mapa geopolítico que revela décadas de cooperação militar entre Irã, Rússia e China nos domínios mísseis e aviônicos.
Hoje, o tabuleiro mudou e a jogada de risco é clara. A linha vermelha foi ultrapassada. O que antes se lidava como operações circunscritas — lembremo-nos do teatro limitado da chamada “guerra dos doze dias” — corre o perigo de transformar‑se numa conflagração extensa, prolongada e com efeitos sistêmicos: uma verdadeira guerra mundial, não pelos atores tradicionais em campo aberto, mas por uma tectônica de poder que redesenha fronteiras invisíveis de influência.
Oficialmente, Teerã aceitou mecanismos de verificação internacional para sua atividade nuclear sob a alegação de finalidade civil. Mesmo assim, os recentes ataques dos Estados Unidos a instalações vinculadas ao programa nuclear e as exigências ocidentais — redução do arsenal balístico e interrupção do apoio a Hamas e Hezbollah — colocam Teerã numa armadilha política: aceitar equivaleria a um suicídio interno; recusar, será apresentado como pretexto para operações militares de maior escala.
Por que, então, uma classe dirigente anglo‑americana de alto nível arriscaria a estabilidade do Golfo Pérsico? A lógica geopolítica, fria como arquitetura clássica, revela objetivos múltiplos: enfraquecer o Irã como potência regional para conter a aproximação sino‑russa e pavimentar um corredor indo‑pérsico sob influência ocidental. Há, no entanto, outra camada estratégica — menos declarada, porém plausível —: golpear centros financeiros emergentes do Golfo que competem com as bolsas de Londres e Nova York. Quando um aliado se transforma em obstáculo, as grandes potências reavaliam o custo do laço; a história mostra que sacrifícios táticos não são inusuais no jogo de grandes estados.
As consequências de uma escalada são óbvias ao cartógrafo do poder: instabilidade prolongada no Golfo Pérsico, risco de colapso de monarquias fragilizadas (Kuwait, Bahrein, Qatar, EAU, Omã) e um colapso no abastecimento energético que reverberaria pelos mercados globais. Economias inteiras e cadeias logísticas sofreriam com a incerteza. Além disso, uma confrontação direta com o Irã poderia arrastar aliados por afinidade e por contrato — e aí reside a possibilidade de uma conflagração em escala maior.
Diplomaticamente, estamos diante de um dilema clássico da Realpolitik: a busca por vantagens estratégicas imediatas vs. os alicerces frágeis da estabilidade regional. A prudência exige um redesenho das prioridades: reforçar canais de contenção, reabrir canais de negociação multilaterais verdadeiros e desenhar uma arquitetura de segurança no Golfo que inclua garantias e mecanismos de verificação confiáveis, em vez de depender exclusivamente de pressão máxima e ações militares unilaterais.
Como analista com olhos de cartógrafo estratégico e mãos no tabuleiro, conclamo à moderação calculada. Movimentos apressados podem produzir um xeque‑mate que ninguém deseja: um desarranjo global cuja restituição levará décadas. O objetivo racional das grandes potências deveria ser evitar o colapso das estruturas regionais e preservar canais de interlocução — não forjar, por ambição geoeconômica, um desastre de alcance planetário.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise estratégica e diplomática.






















