Por Marco Severini — Em um depoimento que soma dúvidas ao inquérito sobre o incêndio no hotel Le Constellation, em Crans-Montana, o comandante dos bombeiros locais, David Vocat, afirmou não ter conhecimento sobre as chamadas espumas acústicas e sua eventual inflamabilidade. O interrogatório ocorreu em 17 de fevereiro, no âmbito da investigação conduzida pela Procuradoria do cantão de Valais.
Perguntado pelos investigadores se sabia que um «material ignífugo pode, com o tempo, degradar‑se e tornar‑se altamente inflamável», Vocat respondeu, de forma curta: “Não faço ideia“. Quando questionado se, ao longo de sua carreira, já presenciara a ignição de uma espuma acústica, a resposta permaneceu negativa.
A tensão do diálogo — registrada em ata — prosseguiu quando os inquiridores buscaram esclarecer o nível de compreensão do comandante sobre a resistência ao fogo desses materiais. “Nenhuma ideia”, disse Vocat, reiterando que conhece espumas no nível de isolamento periférico, “mas não acústico”. Interrogado ainda sobre a existência de regulamentações específicas para a instalação desse tipo de material em edifícios públicos, ele afirmou não ter conhecimento e considerou que não seria papel de um comandante de bombeiros dominar todos os pormenores normativos: “Há tantas coisas que precisamos saber”.
Os investigadores aprofundaram sobre as categorias europeias de resistência ao fogo e sua correspondência nas normas suíças. Vocat declarou familiaridade com marcações como EI 30, 60 e 90 — associadas a portas corta‑fogo —, mas afirmou não ter conhecimentos sobre categorias de materiais, mencionadas nas normas como «M». Em referência às normas mais antigas, citou as portas classificadas como T30, equivalentes a 30 minutos de resistência ao fogo.
Do ponto de vista estratégico e institucional, a declaração do comandante abre uma lacuna técnica relevante no processo investigativo. Não se trata apenas de uma resposta evasiva: revela fragilidades potenciais na coordenação entre reguladores, projetistas de edifícios e serviços de emergência — um desencontro de responsabilidades que em um tabuleiro de xadrez institucional pode produzir movimentos decisivos para a segurança pública.
Enquanto a Procuradoria de Valais avança na apuração das causas do incêndio no Le Constellation, o episódio do depoimento sublinha a necessidade de clarificar direitos, deveres e conhecimentos técnicos entre atores responsáveis por edificações públicas. Em termos práticos, é preciso mapear se materiais acústicos presentes no ambiente do sinistro estavam dentro das especificações e se sua resistência ao fogo corresponde às normas aplicáveis — um trabalho de cartografia técnica que deverá ser parte central do inquérito.
Como analista das tectônicas de poder que moldam decisões públicas, observo que a falta de alinhamento técnico e regulatório é um dos alicerces frágeis da segurança coletiva. Este episódio em Crans‑Montana oferece não apenas pistas para a investigação do incêndio, mas também um lembrete sobre a importância de normas claras e do treinamento cruzado entre especialistas: projetistas, reguladores e equipes de emergência devem ocupar espaços comuns do conhecimento antes que a próxima crise force um movimento reativo no tabuleiro.





















