Por Marco Severini — Há um movimento sísmico nas relações transatlânticas: o acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, celebrado em Turnberry no último verão, entrou em compasso de espera antes mesmo de ser ratificado. O motivo é técnico e político: a Corte Suprema dos EUA anulou as principais tarifas impostas pela administração Trump sob poderes de emergência — tarifas que constituíam a espinha dorsal do compromisso alcançado com Bruxelas.
Sem esse arcabouço tarifário, o equilíbrio político que sustentava o entendimento se fragiliza. O Parlamento Europeu decidiu, por isso, adiar a votação da ratificação. Em termos de estratégia, trata-se de evitar validar um acordo cujo campo de jogo pode ser redesenhado em poucos movimentos.
Do outro lado do tabuleiro, Donald Trump reagiu com ambição renovada: pretende estabelecer um dazio global de 15%, apoiando-se em fundamentos legais alternativos, entre os quais a Section 122 do Trade Act de 1974. Em Bruxelas há receio de que novas medidas se acumulem às existentes, subvertendo o espírito do pacto e a declaração conjunta que fixava um limite “on-nicompreensivo” de 15% para a maioria dos bens.
Como disse a eurodeputada verde Anna Cavazzini, “Dada a enorme incerteza atual, um voto seria injustificável”. Željana Zovko, do PPE, aceitou o adiamento mas advertiu para a necessidade de uma ação concertada: “Devemos agir como Team Europe e com uma só voz. Aceitei adiar, mas não incondicionalmente e não para sempre”. Bernd Lange, presidente da comissão de Comércio do Parlamento, foi categórico: “Business as usual não é uma opção”.
Washington, por sua vez, tenta acalmar: o representante dos EUA para o Comércio, Jamieson Greer, garantiu aos ministros do G7 que a administração americana pretende preservar o arcabouço tarifário — ainda que ancorado em novas bases jurídicas — e que agirá com celeridade “para evitar novas incertezas”. Greer também deixou claro que não haverá reembolsos para exportadores estrangeiros.
Há, no entanto, um desvio de linguagem que merece atenção estratégica. Trump advertiu que países que tentem “jogar” com a decisão da Corte serão atingidos por “tarifas muito mais altas”. Transformar um instrumento técnico em uma alavanca político-permanente muda as regras do jogo e cria um clima de imprevisibilidade institucional.
A Comissão Europeia resume o cenário com franqueza: não há um contexto favorável a trocas “justas, equilibradas e mutuamente vantajosas”. Em termos práticos: enquanto não ficar claro qual é a verdadeira política comercial dos EUA, a Europa não pode ratificar um acordo que pode alterar sua conformação de modo abrupto — e que, de resto, despertava muitas reservas dentro dos próprios Estados-membros.
Do ponto de vista geoestratégico, vemos aqui um redesenho de fronteiras invisíveis no comércio mundial. A situação exige prudência e coordenação — um movimento de espera calculada no tabuleiro, em que cada peça deve ser reposicionada à luz da nova tectônica de poder. Ratificar agora seria entregar ao acaso a estabilidade de interesses europeus essenciais.
Em suma: o acordo existe como arcabouço negociado, mas a sua vigência política depende de fatores externos e mutáveis. Até que as bases jurídicas e a intenção estratégica de Washington sejam cristalinas, Bruxelas escolheu a cautela — uma jogada de diplomacia que visa preservar alicerces frágeis antes de consolidá-los.






















