Por Marco Severini — Em Bruxelas, no encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia marcado pela proximidade do quarto aniversário da invasão russa, o debate sobre o apoio a Kiev revelou um novo e delicado nó diplomático. O ministro húngaro Péter Szijjártó afirmou de modo incisivo que o problema não é o ódio húngaro à Ucrânia, mas, ao contrário, que o próprio Estado ucraniano “odia a Hungria” e promove há cerca de uma década uma política abertamente hostil contra Budapeste.
As palavras do chanceler húngaro surgem num momento em que a coesão comunitária era testada por duas decisões estratégicas: o vigésimo pacote de sanções contra a Rússia, apresentado pela Comissão Europeia em 6 de fevereiro e dirigido a reforçar medidas contra a elusão das sanções; e o grande empréstimo coletivo — estimado em cerca de 90 mil milhões de euros — destinado a financiar a Ucrânia no biénio 2026-2027, já aprovado pelos chefes de Estado e de Governo em dezembro e dependente da concordância dos ministros.
O ponto fulcral do conflito é energético: a interrupção das entregas de petróleo russo à Hungria através do oleoduto Druzhba precipitou a suspensão húngara ao voto sobre ambos os atos europeus. O troço que alimenta a Hungria e a Eslováquia — países que, desde 2022, usufruem de uma derrogação ao embargo comunitário — ficou danificado por bombardeamentos, segundo relatos iniciais; porém, Szijjártó rejeita essa leitura técnica. “Não há razão física nem técnica para que o Estado ucraniano tenha decidido não reiniciar as entregas de petróleo à Hungria. É uma decisão política”, disse ele, transformando o fornecimento energético numa peça de pressão geopolítica.
Budapeste condicionou a sua retirada do veto à reativação do oleoduto Druzhba. “Isto põe em risco a nossa segurança energética. Se os ucranianos decidirem reiniciar as entregas, podemos reconsiderar a nossa posição”, afirmou o ministro, repetindo um argumento que converte infraestruturas energéticas em tabuleiros de barganha diplomática.
Do outro lado do espectro, Bruxelas procurou amortecer as acusações com explicações de caráter técnico e de segurança. A Comissão Europeia e vários parceiros têm sublinhado que algumas infraestruturas no território ucraniano sofreram danos e que Kiev tem preocupações legítimas quanto à integridade e à segurança dos oleodutos em zona de conflito. Além disso, as autoridades europeias lembram que a coesão do bloco é um alicerce estratégico para sustentar a resposta à agressão russa e o financiamento da resistência de Kiev.
O impasse expõe a fragilidade das frentes e a divergência entre a diplomacia multilateral e os interesses nacionais. A administração de Viktor Orbán tem, sistematicamente, adotado uma postura cautelosa sobre medidas punitivas mais duras contra Moscovo, ao mesmo tempo em que busca garantir o abastecimento energético doméstico. Para Budapeste, a reabertura do fluxo pelo oleoduto Druzhba é, na prática, uma condição sine qua non para abandonar o bloqueio.
Enquanto as conversações prosseguem, o episódio deixa claros dois riscos geopolíticos: primeiro, o desgaste da unidade europeia num momento em que a coordenação é vital; segundo, a instrumentalização de infraestruturas críticas como peças dinâmicas na “tectônica de poder” regional. Em termos de xadrez diplomático, Budapeste jogou uma peça estratégica que força Bruxelas a considerar movimentos compensatórios, negociações bilaterais e possível arbitragem técnica.
O desfecho dependerá da capacidade de traduzir argumentos técnicos em confiança política e de restabelecer linhas de comunicação entre Kiev e Budapeste sem abandonar os princípios da solidariedade europeia. O episódio confirma que, na arquitetura contemporânea das relações internacionais, a estabilidade depende tanto de ferros e oleodutos intactos quanto de diplomacia paciente e de bastidores bem arquitetados.






















