Milano Cortina deixou-se encerrar em Verona num quadro de celebração e significado coletivo. Na noite do fechamento dos Jogos, a imagem dos dois portadores da bandeira italiana — Davide Ghiotto, campeão do patinação de velocidade, e Lisa Vittozzi, medalhista olímpica do biatlo — projetou algo além do gesto protocolar: um símbolo de orgulho e de síntese identitária para o Italy Team.
Nas palavras de Ghiotto, “foi uma emoção única, indescritível, também per l’entusiasmo trasmesso dal pubblico. Davvero un momento speciale”. A definição é precisa e coincide com o que se vê quando o esporte transcende a competição e se transforma em memória coletiva: o atleta-portador da bandeira torna-se um interlocutor entre a equipe, a nação e a torcida. Vittozzi reiterou o sentimento, sublinhando que ambos viveram uma experiência emocionante e que estão orgulhosos de ter representado o país na cerimônia que encerrou “a edição olimpica invernale più vincente di sempre per l’Italia Team”.
Como repórter e analista, interessa-me pouco o efeito imediatista do figurino ou do flash emocional. Importa, sim, perceber o que esse momento diz sobre o estado do esporte italiano: a capacidade de produzir campeões, transformar investimentos em resultados e, sobretudo, costurar uma narrativa pública que une regiões, gerações e memórias. A presença de Ghiotto e Vittozzi na abertura e no encerramento — figuras de modalidades distintas — é uma leitura dessa diversidade consolidada em sucesso.
Verona, palco do encerramento, ofereceu ao público uma resposta calorosa. O entusiasmo que Ghiotto cita não é casual; é reflexo de uma temporada olímpica que renovou expectativas e alimentou um sentimento de pertença. Para além das medalhas, a cerimônia funcionou como um rito de passagem: a Itália acolheu os seus heróis numa festa que traduz a ambição do país em manter e ampliar o papel no cenário do esporte global.
É relevante também considerar o papel simbólico do portabandiera. Não se trata apenas de carregar um mastro: é carregar representação, uma história pessoal transformada em símbolo público. Ghiotto e Vittozzi tornaram-se, por algumas horas, figuras de referência — não apenas para as modalidades que representam, mas para a narrativa coletiva construída por estes Jogos.
Enquanto observador atento às estruturas que sustentam o esporte moderno, é possível ler nesta cerimônia indicações sobre o futuro: preparação de atletas, coesão institucional e a atenção crescente do público. Se a edição de Milano Cortina foi, como se disse, a mais vitoriosa da história italiana nos Jogos de Inverno, a imagem dos portabandiera em Verona será um arquivo simbólico dessa temporada.
Ghiotto e Vittozzi voltam agora às suas rotinas, carregando consigo a responsabilidade e a legitimidade de quem já personificou um instante de comunidade nacional. E, nesta leitura, a cerimônia não encerra apenas uma Olimpíada: abre a reflexão sobre como a Itália quer se projetar nos próximos ciclos, quais projetos de formação serão priorizados e como transformar este momento de glória em legado estrutural.
Repórter: Otávio Marchesini, Espresso Italia





















