Por Alessandro Vittorio Romano – A paisagem da saúde italiana tem sulcos profundos: onde o sistema público encontra atrasos e desigualdades territoriais, o caminho privado floresce — mas nem todos podem segui-lo. Um novo relatório promovido pela Federcasse e elaborado por NeXt Nuova Economia, intitulado “Quando i soldi non bastano – Il razionamento sanitario in Italia: la situazione degli ultimi sei anni”, revela que a spesa sanitária privada cresce com o rendimento, deixando as famílias de menores recursos à margem do cuidado complementar.
O estudo, que analisou mais de 8 milhões de declarações fiscais individuais referentes ao período de 2019 a 2024, mostra que, a paridade de outras condições, os contribuintes nas faixas de rendimentos mais baixos gastam entre 1.000 e 2.000 euros por ano a menos em cuidados de saúde do que aqueles nas faixas superiores (considerando os escalões vigentes antes da última reforma). Em termos concretos, trata‑se de uma diferença que desenha um fosso entre quem consegue antecipar ou complementar tratamentos na rede privada e quem precisa esperar — muitas vezes demasiado.
Entre a população idosa, o contraste é ainda mais nítido. No grupo dos mais de 80 anos com rendimentos reduzidos, cerca de 55% declaram não ter gasto nenhum euro em saúde privada no ano analisado, contra 10% a 15% nas faixas de rendimento mais elevadas. É um número que soa como uma estação parada: a cidade respira, mas muitos ficam em silêncio, sem poder acessar caminhos mais rápidos de cura.
As razões por trás desse comportamento não são mágicas, são estruturais: tempos de espera prolongados, oferta territorial desigual e a escassez de pessoal e serviços empurram uma parcela da população para a despesa privada, quando esta é uma opção ao alcance. Para quem tem menos recursos, essa opção muitas vezes não existe — permanece uma demanda latente, adiada como uma colheita que não chega a brotar.
O relatório alerta para uma consequência social grave: o acesso aos cuidados torna‑se dependente do bolso, e não apenas das necessidades médicas. A concentração da despesa privada nas faixas mais altas reforça desigualdades e cria uma dupla velocidade de acesso à saúde, com repercussões no bem‑estar coletivo e na coesão social.
Como observador das estações do cotidiano e dos ritmos que moldam a vida italiana, vejo essa realidade como um ciclo que se repete: quando o terreno público não sustenta a colheita do cuidado, surgem jardins privados bem regados — porém, só para quem tem sementes e água. E enquanto metade dos idosos de baixa renda permanece sem recorrer ao privado, cresce uma sombra de fragilidade que atinge a respiração da comunidade.
Políticas públicas que reduzam tempos de espera, fortaleçam a oferta territorial e invistam em pessoal são, portanto, essenciais para nivelar esse terreno. A mensagem do relatório é clara: sem intervenções eficazes, a desigualdade no acesso à saúde continuará a ser um vento frio que atravessa as estações do país.
Em suma, a análise da Federcasse e de NeXt não é apenas um mapa de números; é um convite a olhar para as raízes do bem‑estar. Transformar a paisagem da saúde italiana exige semear medidas concretas hoje, para que amanhã a colheita seja mais justa e a respiração da cidade mais leve.






















