Cortina está pronta para assumir o papel central das Paralimpiadi de Inverno de 2026: a cidade receberá cerca de 70% das provas a partir de 6 de março, transformando-se no epicentro esportivo, social e simbólico do evento. O Veneto entra na disputa com uma delegação que representa mais do que ambição por pódios — apresenta histórias de superação, laços locais e um apelo por inclusão.
“Vedere Cortina al centro delle Paralimpiadi è motivo di un orgoglio profondo”, afirma Davide Giorgi, presidente del Comitato Italiano Paralimpico Veneto, em declaração que sintetiza o tom oficial da região. Para Giorgi, a competição ultrapassa o plano meramente desportivo: “Non è solo una questione di gare, ma di valore sociale”.
Os números confirmam um território em transformação: o Veneto registra cerca de 314 mil pessoas com deficiência — aproximadamente 6% da população regional —, mas apenas 9,9% delas pratica atividade motora de forma continuada. Entre os atletas paralímpicos de alto rendimento ligados à região, o total chega a 2.550. Segundo Giorgi, o movimento paralímpico no Veneto triplicou o número de atletas filiados nos últimos anos e hoje contribui com, em média, cerca de 30% das medalhas paralímpicas italianas.
“Sono dati che devono far riflettere”, acrescenta o presidente do Comitê. Na sua leitura, o esporte adaptado deve ser tratado como ferramenta de reabilitação, inclusão e dignidade — “un diritto garantito, non un privilegio”. Esse posicionamento é parte do argumento público do Veneto enquanto anfitrião de grande parte das provas.
O rosto mais conhecido da representação veneta é Renè De Silvestro, policial de San Vito di Cadore, nascido em 1996, e uma referência do sci alpino paralímpico. Após um acidente grave em 2013, De Silvestro reconverteu a carreira em um roteiro de recuperação e excelência: duas medalhas paralímpicas em Pequim 2022, seis títulos mundiais, duas Copas do Mundo em especialidades e 57 pódios no total. “Tornare a gareggiare a casa mia è qualcosa che va oltre lo sport”, disse o atleta, destacando o valor identitário de competir em Cortina. De Silvestro também foi destaque no trajeto da chama olímpica — experiência que descreveu como “un onore immenso” e uma representação prática dos ensinamentos do esporte sobre superação e gestão da fadiga.
Ao lado dele, o Veneto terá em pista Luca Palla, 39 anos, natural de Agordo, que compete no sci alpino em pé. A trajetória de Palla sintetiza a relação entre território e atleta: raízes locais, recuperação e adaptação técnica para disputar em alto nível. Juntos, De Silvestro e Palla personificam as esperanças de pódio do Veneto nas provas de esqui alpino.
Além do esqui, a região aposta no wheelchair curling como disciplina com potencial de medalhas e visibilidade. A combinação entre infraestruturas em Cortina e um ecossistema esportivo mais robusto no Veneto alimenta expectativas concretas: resultados não são apenas consequência de talentos isolados, mas do trabalho de base, centros de treinamento e políticas públicas que ampliem o acesso ao esporte adaptado.
Na leitura jornalística de apuração e cruzamento de fontes, a narrativa que chega de Cortina é dupla: por um lado, a logística — com a cidade concentrando a ampla maioria das provas; por outro, o significado civilizatório — transformar a competição em alavanca de direitos e práticas esportivas continuadas. Em resumo: as Paralimpiadi que começam em Cortina trazem em si tanto a disputa por medalhas quanto a chance de consolidar o esporte adaptado como direito.
Do ponto de vista técnico, a contagem regressiva amplia a pressão por resultados, mas também aciona uma agenda que o Veneto já vem defendendo: mais investimento em práticas motoras para pessoas com deficiência, programas de base e reconhecimento institucional do valor social do esporte. É nesse cruzamento de variáveis — performance e inclusão — que Cortina tende a oferecer o seu legado efetivo para além dos pódios.






















