Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes.
Após onze anos de portas fechadas, os Scavi Scaligeri, em Verona, reabrem ao público em um trabalho que combina arqueologia, memória urbana e curadoria fotográfica. O local, concebido nos anos 1990 a partir de uma ideia de Luca Darbi, volta a ser acessível graças a uma intervenção técnica e institucional que devolve leitura e fruição ao sítio.
A reabertura não foi obra do acaso. Presidida por um trabalho conjunto entre a Soprintendenza, proprietária dos bens arqueológicos, e o Comune, responsável pelas estruturas físicas, a operação incluiu um novo acesso, instalação de elevador e passarelas que garantem mobilidade e segurança. Em paralelo, houve um aprofundado trabalho de relayout do percurso expositivo que torna inteligíveis as camadas históricas do lugar — ruas, cloacas, aquedutos romanos, resquícios de colunatas de edifícios públicos, domus com lacunas de pavimento musivo, estruturas tardo-antigas e casas-torre medievais — em uma leitura coerente e didática.
O motor que acelerou a entrega foi, segundo as fontes consultadas, a ocasião das cerimônias olímpicas, que funcionou como oportunidade e alavanca de financiamento e prioridade. Em sintonia com essa agenda, decidiu-se associar a arqueologia ao tema esportivo recuperando material editorial e fotográfico dos arquivos da revista Life.
Nasce assim a mostra Winter games! Gli sport invernali. Fotografie dagli archivi Life 1936-1972, curada por Simone Azzoni, a partir de uma ideia de Giuseppe Ceroni e produzida pela Silvana Editoriale. A exposição, visitável até 2 de junho, reúne cem imagens selecionadas por Azzoni — algumas inéditas — assinadas por nomes como Ralph Crane, John Dominis e Alfred Eisenstaedt. Em vez de seguir ordem cronológica ou agrupar por autores, o roteiro organiza-se por áreas temáticas, provocando leituras que dialogam diretamente com as camadas arqueológicas do sítio.
A experiência expositiva combina o registro fotográfico do século XX com o ambiente subterrâneo: as fotografias de Life — a revista que, entre 1936 e 1972, foi descrita por Azzoni como uma das mais potentes fábricas de imaginário visual do século XX — entram em tensão com ruas e aquedutos romanos, elevando a sugestão do conjunto e ampliando a interpretação dos corpos, dos gestos e da tecnologia esportiva.
Ao chegar, o visitante é recebido por um vídeo com a voz do arquiteto Libero Cecchini (Verona, 1919-2020), figura decisiva na gênese do centro nos anos 1980, lembrado pela convocação do arqueólogo inglês Peter Hudson em uma experiência que se tornou referência em arqueologia urbana.
Resultado: os Scavi Scaligeri voltam a funcionar não apenas como sítio arqueológico, mas como centro de leitura histórica e cultural, integrando patrimônio, acessibilidade e memória fotográfica. A mostra sobre os esportes de inverno atua como catalisador para uma fruição ampliada do espaço e como exemplo de como parques arqueológicos podem ser relidos em diálogo com outros arquivos.
Dados apurados: reabertura após 11 anos; fundação do centro nos anos 1990 por Luca Darbi; 100 fotografias (1936-1972); curadoria de Simone Azzoni; ideia de Giuseppe Ceroni; produção Silvana Editoriale; exposição até 2 de junho; fotógrafos destacados: Ralph Crane, John Dominis, Alfred Eisenstaedt; melhorias físicas: novo ingresso, elevador, passarelas; voz e memória de Libero Cecchini e referência a Peter Hudson.






















