Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma das imagens que melhor sintetizam a fragilidade e a resistência do esporte moderno, Lindsey Vonn deixou o hospital nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, após enfrentar um dos episódios mais delicados de sua carreira. A campeã olímpica sofreu uma grave lesão na tíbia esquerda durante a prova de downhill dos Jogos de Milano Cortina e foi submetida a cinco operações, a última realizada nos Estados Unidos depois da saída do hospital de Treviso.
No vídeo publicado aos fãs pelo seu perfil no Instagram, Lindsey Vonn mostrou-se contida, detalhando de forma direta e sem rodeios os próximos passos: a transferência para um hotel para iniciar a fase seguinte do tratamento e, em seguida, o foco na reabilitação. “Finalmente saí do hospital!!! Depois de quase duas semanas quase imóvel em um leito, estou bem o suficiente para me transferir para um hotel”, disse ela, em palavras que misturam alívio e prudência.
A esquiadora não escondeu a cautela médica: “Não sou médica, então se eu não explicar algo perfeitamente, me perdoem”, afirmou, agradecendo explicitamente ao cirurgião que a acompanhou, Dr. Tom Hackett. A narrativa clínica é simples e dura: o quadro foi complexo no momento do acidente, mas a equipe conseguiu controlar a situação e estabilizar a atleta.
O caminho para a recuperação, porém, foi descrito por Vonn como longo e metódico. Nos próximos dias ela pretende trocar a cadeira de rodas pelas muletas, e a perspectiva de cura completa das fraturas da tíbia esquerda leva cerca de um ano. Só após esse processo será avaliada a retirada de parafusos e placas e a eventual cirurgia para reparar o ligamento cruzado anterior — procedimento que ficaria em segundo plano até a consolidação óssea.
Mais do que um boletim clínico, o episódio coloca em evidência uma dimensão recorrente no esporte de alto rendimento: o choque entre a expectativa de retorno e os limites do corpo humano. Lindsey Vonn, que construiu uma carreira sobre a velocidade e o risco controlado, vê agora sua trajetória marcar uma pausa forçada. Para uma atleta cujo corpo foi ferramenta e identidade, a reabilitação é também um processo de reconstrução simbólica — ressignificar a imagem pública sem repetir a dureza impessoal dos boletins médicos.
Como repórter atento às tramas que atravessam o esporte europeu, observo que episódios como este reverberam além das pistas. Eles interrogam estruturas de apoio à recuperação, decisões de federações e clubes, e a relação entre espetáculo e segurança. A saída de Vonn do hospital é, portanto, um alívio imediato, mas também o início de um tempo longo e necessário de cuidados.
Ela encerrou a mensagem com otimismo contido: “Será uma estrada longa, mas chegarei lá. Ao menos estou fora do hospital”. Palavras simples, que encerram uma fase e anunciam outra — a do trabalho diário, paciente, preciso, que poderá exigir não só intervenções cirúrgicas complementares, mas o reprocessamento de uma carreira que sempre dialogou com o limite.
Data: 23 de fevereiro de 2026
Otávio Marchesini — repórter de Esportes da Espresso Italia




















