Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura graça de veterano e audácia de estreante, William Shatner, eterno Capitão Kirk da saga Star Trek, anunciou o lançamento de um álbum heavy metal aos 94 anos. A notícia chega como se fosse um corte de câmera — inesperada, porém carregada de sentido: aquele astro televisivo que já cruzou galáxias fictícias e, na vida real, tocou o espaço, agora volta seu olhar para a distorção sonora.
No comunicado postado por Shatner nas redes sociais, ele resumiu o percurso como uma trilogia de explorações: “Explorei o espaço. Explorei o tempo. Agora… exploro a distorção”. O repertório esperado inclui versões de clássicos de bandas como Black Sabbath, Iron Maiden e Judas Priest, além de composições originais “forjadas no mesmo fogo cósmico”.
O projeto, que reúne cerca de 35 músicos — descritos como virtuosos do gênero — promete “guitarras tonantes e um caos com sentido”: uma proposta que soa menos como uma aventura de egocentrismo e mais como uma colaboração sonora pensada para dialogar com a história do heavy metal. É uma coalizão criativa que, em tempos de regravações e homenagens, propõe um reframe: o ícone da cultura pop se coloca não apenas como intérprete, mas como catalisador de um encontro entre gerações.
É difícil não ler esse movimento como um comentário sobre a própria trajetória de Shatner. Também conhecido por papeis em séries como T. J. Hooker e Boston Legal, ele entrou para os registros quando, em 2021, viajou em um voo suborbital da Blue Origin — aos 90 anos tornando-se a pessoa mais idosa a ir ao espaço. Essa experiência real de flutuar fora da Terra adiciona camadas simbólicas ao álbum: não é apenas um gesto de reinvenção, mas uma continuidade da curiosidade que marca sua vida pública.
Como analista cultural que observa o entretenimento como espelho do nosso tempo, vejo nesse anúncio um pequeno manifesto contra a narrativa de obsolescência. Shatner não aceita o corte final; ele aumenta o volume. Há aqui uma semiótica do viral que não se contenta com nostalgia pálida: prefere a audácia de reinterpretar e provocar. O heavy metal, com sua genealogia ligada à rebeldia sonora e ao imaginário épico, oferece o cenário ideal para essa reescrita biográfica.
Para fãs do rock e estudiosos do zeitgeist, será interessante notar os arranjos e a escolha das canções — se irão homenagear fielmente os originais ou oferecer um new wave de leitura dramática, quase teatral, que dialoga com a experiência performática de Shatner. Em termos práticos, o disco ainda não teve uma data de lançamento definida, mas o ator avisou que “a viagem metal começa este ano”.
Se o mundo do entretenimento fosse um filme, este seria um plano-sequência que atravessa décadas: do holofote televisivo aos bancos de uma espaçonave, até o palco elétrico do heavy metal. O gesto de William Shatner funciona como um lembrete elegante de que reinvenção não tem idade — e que a distância entre o épico e o pessoal pode ser preenchida com um riff poderoso.
Fique atento: a chegada deste álbum promete conversas, risos surpresos e, possivelmente, capítulos inéditos na carreira de um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Afinal, quando um ícone decide “aumentar o volume”, a cultura toda escuta.






















