Por Chiara Lombardi — Em um itinerário entre estúdio e ruas, o documentário Franco Califano – Nun ve trattengo (Sky Documentaries) desenha o retrato de quem foi apelidado de o último dos românticos. A narrativa se bifurca: em um ambiente de rádio, um apresentador dedica uma transmissão inteira ao cantautor; por fora, Lele Vannoli percorre a Roma de Califano a bordo de um carro de época, sintonizado nas ondas da Radio Radicale, resgatando lugares que ajudaram a compor sua mítica pessoal.
Califano não foi apenas um intérprete de costumes urbanos — foi, antes de tudo, um autor prodigioso. Assinou canções que se tornaram clássicos na voz de outras artistas: Minuetto para Mia Martini, La musica è finita para Ornella Vanoni, e ainda a adaptação brilhante de um texto francês em Un’estate fa (de Une belle histoire). Na sua obra, voltam com frequência a vida de rua, as noites mal dormidas, amores fugazes em motéis e a inevitável sensação de vazio no amanhecer — um cenário que se tornou metáfora do tédio existencial.
O verso que atravessa sua discografia — “Tutto il resto è noia” — funciona aqui como um espelho do nosso tempo: uma frase curta que traduz a insatisfação humana contemporânea com clareza cirúrgica. O documentário usa fitas de arquivo e captações da Radio Radicale para costurar depoimentos de quem conviveu e trabalhou com Califano: Claudia Gerini, Francesco Rutelli, Maurizio Mattioli, Barbara Palombelli e Federico Zampaglione emprestam memórias que humanizam o ícone.
Ao mesmo tempo, a presença de nomes da cena urbana atual — Noyz Narcos, Franco126 e Ketama126 — confirma uma herança musical que atravessa gêneros e gerações, mostrando como a semiótica do viral se alimenta de ecos culturais do passado. É um lembrete de que certas narrativas sonoras persistem como arquétipos: o cantor marginal, a cidade como cenário, o amor como combustível e ruína.
Califano viveu uma biografia tão intensa quanto suas letras: sucessos e quedas, excessos e renascimentos. Entre os capítulos mais sombrios está a passagem pela prisão e o envolvimento em um processo judicial grotesco — o mesmo clima que atinge figuras como Enzo Tortora — do qual foi posteriormente absolvido. Essa vida pública espelhada nas canções consolidou a sua imagem de coerência entre homem e artista, alimentando uma ligação afetiva duradoura com o público.
Como observadora do zeitgeist, não vejo apenas um documentário sobre um músico: vejo um estudo de caráter social. Califano é um roteiro oculto da sociedade italiana do século XX, uma lente sobre desejos, falhas e a perpetuação do arrependimento em forma de melodia. Assistir a Franco Califano – Nun ve trattengo é revisitar a cidade, a voz e o eco cultural que permanecem, mesmo quando a música termina.






















