Por Chiara Lombardi — Em uma entrevista que mistura memória pessoal e análise cultural, Lucio Presta entrega capítulos íntimos e cortes cirúrgicos sobre os bastidores da televisão italiana. Autor de L’uragano (Piemme), Presta percorre carreira, amizades rompidas e feridas públicas — sempre com a visão de quem vê o entretenimento como espelho do nosso tempo.
O livro, já entre os mais vendidos, é apresentado por Presta como um roteiro de vitórias e conflitos: “conta de escutas salvadoras, audiência estratosférica, processos e brigas ferozes”. O autor não economiza nos retratos: fala de profissionais que lhe inspiraram admiração — como Roberto Benigni — e de episódios que parecem saídos de um filme biográfico, como a determinação de Heather Parisi em dormir sempre na própria casa, mesmo em turnê — e a viagem de 630 quilômetros de Sanremo a Roma para atendê-la.
Dentro desse panorama, as passagens sobre sua vida privada trazem as notas mais cortantes. Segundo Presta, sua mulher, Paola Perego, passou meses sem sair de casa depois de ser publicamente atacada pela Rai e por Antonio Campo Dall’Orto: “Eles a fizeram em pedaços”, diz ele, e atribui a sequência ao ponto de que ela chegou a perder 16 quilos. A descrição tem a crueza de quem testemunha o impacto público sobre um corpo e uma carreira — a semiótica do viral operando com suas consequências reais.
Sobre alianças e traições, Presta não poupa nomes. Afirma que Sonia Bruganelli nutriria uma “smisurata sete di potere” — uma sede desmedida de poder — e que suas ações foram agressivas ao ponto de, segundo ele, terem usado “uma lâmina afiada para tentar me matar”. Trata-se de uma declaração forte, apresentada na entrevista como explicação para sua necessidade de esclarecer publicamente os fatos.
O capítulo das amizades perdidas é sobre Paolo Bonolis. Presta afirma que sentiu por Bonolis um afeto profundo e que, por isso, doi-lhe hoje a ruptura: “Ci siamo voluti un bene dell’anima”. Ele confessa sentir falta, descrevendo o fim da amizade como uma perda pessoal, não apenas como nota de rodapé da carreira.
Outra crítica contundente recai sobre Amadeus, que, no juízo de Presta, teria “falhado”. Não como denúncia exclusiva de incompetência técnica, mas como sintoma de um sistema que repetidamente não corresponde às expectativas de renovação e risco. Presta também revela o desejo de uma última produção: sonha em organizar um último Sanremo, como se quisesse fechar um ciclo na grande opereta cultural italiana.
Entre confidências e ironias, surge ainda um comentário sobre Belen: para Presta, ela pensa mais no amor do que no trabalho — uma leitura que descreve comportamentos públicos como atos intimamente narrativos. E há um ponto quase filosófico: “Quando você entra em competição com quem, dentro de casa, quer disputar seu lugar, você parte em desvantagem”, diz, lembrando que relacionamentos conjugais muitas vezes entram no roteiro profissional.
O tom de Lucio Presta é de quem se sabe personagem e autor — ele se define mais como incêndio do que como fogo discreto: “Io non brucio: io mi incendio”. Essa autodefinição contém o dilema central: o gestor que escreve o próprio espelho, que transforma experiência em narrativa pública, e que questiona o cenário de transformação da televisão italiana.
Ao final, o relato soa menos como confissão privada do que como diagnóstico: a indústria cultural, com suas luzes e facas, continua a reescrever identidades. Presta oferece aqui não apenas memórias, mas um convite a olhar para o roteiro oculto da sociedade — e a refletir sobre quem escreve as cenas e quem paga o preço de aparecer no palco.




















