Por Chiara Lombardi — Emocional e perspicaz, a trajetória de Francesco Gabbani é um pequeno roteiro sobre resistência e timing histórico: um espelho do nosso tempo onde talento, paciência e uma reviravolta do destino reescreveram o seu lugar no mundo da música.
Antes de virar rosto conhecido do grande público, Gabbani viveu a experiência da chamada «gaveta tradicional»: filho de um pai que foi baterista e depois abriu uma loja de instrumentos, ele aprendeu na prática o ofício musical — e a humildade do ofício. Tocava covers blues em bares da Toscana, juntava os míseros cachês para gravar os próprios inéditos e passou por uma banda, os Trikobalto, sem conseguir um salto decisivo na carreira.
Havia um limite pessoal: se aos 30 anos não viesse um resultado concreto, ele prometeu a si mesmo abandonar a carreira artística. Por um tempo cumpriu essa promessa na prática: trabalhava no estabelecimento da família e continuava a compor, agora também como autor para outros.
O reframe veio com o Sanremo. Gabbani já tentara o caminho várias vezes — sozinho e com a banda — e sempre parava pouco antes: chegando às fases finais das seleções, falhava por pouco. Mas um editor que acreditou nele disse algo decisivo: algumas canções só podiam ser cantadas por ele. Ainda que descrente, aceitou tentar de novo.
A vitória em Sanremo Giovani foi quase um roteiro cinematográfico: um erro no sistema de votação chegou a eliminá-lo. Ele já havia aceitado voltar ao trabalho na loja quando o voto foi refeito — e, surpreendentemente, ele voltou à disputa e venceu. Uma inversão dramática que lembra o momento em que no filme o protagonista respira após longa apneia.
O triunfo mudou tudo. Em 2016, a primeira vitória entre as Novas Propostas validou anos de sacrifício; em 2017, a consagração entre os Big com Occidentali’s Karma lançou-o ao grande público. A icônica imagem da macaca no palco — inspirada no texto de Desmond Morris sobre o homem como “macaco nu” — tornou-se símbolo e, ao mesmo tempo, alvo de leituras simplistas. Para Gabbani, a figura representava a ideia de que, apesar do progresso, continuamos a dançar sem entender totalmente o significado dos nossos movimentos.
Ele relembra o Ariston como um ponto de virada que confirmou que todo o trabalho tinha sentido: as noites em que preferiu gravar a sair com amigos, as horas gastas em estúdio, encontraram uma contrapartida concreta. De repente não era mais alguém que tentava fazer arte; era um artista.
Curiosamente, Gabbani tinha 33 anos quando viveu sua grande virada — um lembrete de que a indústria nem sempre exige sucesso precoce para quem persiste. Em uma era em que a visibilidade pode ser acelerada por web e talentos de programas instantâneos, sua história funciona como uma fábula contemporânea: a música não conhece idade e, às vezes, espera seu momento no roteiro.
Um detalhe quase cinematográfico: cerca de dois meses antes do festival, ele levou o último piano que trabalhava na loja até o terceiro andar de um prédio — um gesto que simboliza fisicamente o peso do passado colocado no lugar que a carreira iria deixar para trás.
Hoje, olhando para trás, a narrativa de Francesco Gabbani não é apenas a de quem venceu um concurso. É a de quem atravessou o ruído cultural e encontrou uma voz que ressoou com o público. O fenômeno Occidentali’s Karma foi mais do que um hit: funcionou como lente para perceber contradições culturais e a própria semiótica do sucesso viral.
Para o observador atento, a trajetória de Gabbani oferece um reframe sobre como comemoramos vitórias artísticas: nem sempre são explosões súbitas, muitas vezes são respirações longas que, quando liberadas, ocupam todo o palco.
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia; escreve sobre como o entretenimento reflete e molda memórias coletivas.






















