Por Chiara Lombardi — Em meio ao cenário festivo e ritualístico do Festival de Sanremo, surge um nome que parece carregar a precisão de um conservatório e a urgência do universo urbano contemporâneo: Noya, nome artístico de Mattia Villano. Aos 23 anos, o produtor salernitano é o mais jovem desta edição a assinar um dos concorrentes em palco: a canção Poesie clandestine, interpretada por LDA e Aka 7even.
Há algo de cinematográfico na trajetória de Noya. Formado em composição eletroacústica no Conservatório aos 21 anos, com estudos de piano e violino desde a infância, ele representa esse tipo híbrido de artista que transita entre o rigor acadêmico e a gramática do pop urbano — uma espécie de espelho do nosso tempo, onde tradição e contemporaneidade se reencontram no estúdio.
“É uma emoção única”, confessa Mattia Villano sobre sua estreia em Sanremo. E é fácil visualizar a cena: o produtor, até então imerso em horas de edição e arranjos digitais, detém a respiração ao ouvir a orquestra tocar ao vivo a peça que ele ajudou a moldar. “A sensação real de conquista veio quando ouvi a orquestra nas provas gerais. Aí pensei: ok, está realmente acontecendo.”
A gênese de Poesie clandestine remete a uma intimidade criativa: o trio vem trabalhando junto há mais de dois anos, e desde setembro dividem o mesmo teto em Milano. “Somos coinquilini”, ri o produtor. “Começamos com piano e voz; a música cresceu naturalmente a partir daí.” Essa convivência é, por si só, um barato laboratório narrativo — o cotidiano como roteirista invisível do processo artístico.
O laço familiar que conecta LDA a Gigi D’Alessio também entrou na equação. O veterano napolitano ouviu a faixa durante uma fase do trabalho: “Foi importante confrontar-nos com ele. Gigi deu conselhos preciosos, mas nunca alterou a essência do que estávamos fazendo. É um grande.” O encontro entre gerações — conselhos sem subjugação — ilustra bem o reframe cultural que sustenta Sanremo: tradição que revisita e reavalia a contemporaneidade.
Sobre ambições, Noya é direto e discreto. Milano mostrou-se uma plataforma fecunda: “A cidade me dá muito. Conheci pessoas que me desafiam. Quero continuar crescendo, fazer sempre melhor do que ontem.” Sua mensagem é também um manifesto: estudar música não é garantia de fama instantânea, mas fornece ferramentas que tornam possível um avanço consistente no ofício.
No centro dessa narrativa está uma lição que pareça saída de um roteiro bem escrito: autenticidade aliada a técnica cria durabilidade. “Hoje é fácil obter algo ‘bonito’ rapidamente, mas construir um papel que permaneça exige estudo, paciência e identidade. Façam música porque precisam, não só para chegar.”
Assim, Noya chega a Sanremo não como um mero fenômeno de passagem, mas como um sinal de que o diálogo entre conservatório e cultura urbana pode produzir frutos que ressoam além do palco. Em tempos em que o viral frequentemente reescreve carreiras, ouvir alguém que aprendeu a compor entre partituras e síntese eletrônica é um lembrete de que o sucesso, quando bem arquitetado, é também obra de fundo e persistência.
Enquanto a orquestra ainda ecoa nos corações de quem acompanhou as provas, resta observar o que virá: uma carreira lapidada aos poucos em Milano, o reafirmar de uma identidade artística e a confirmação de que, por vezes, o roteiro oculto da sociedade se revela em melodias que atravessam gerações.






















