Por Chiara Lombardi — No palco do Teatro Ariston, o Festival de Sanremo volta a funcionar como um espelho do nosso tempo: gerações que se encontram, memórias que se reescrevem e estilos que se entrelaçam. Entre os concorrentes da edição, chamam atenção dois nomes que simbolizam essa ponte geracional: Lda e Aka 7even, respectivamente com 22 e 25 anos — os mais jovens entre os “Big” em competição.
Os dois artistas, conhecidos também por seus nomes de batismo — Luca D’Alessio (filho de Gigi D’Alessio) e Luca Marzano — chegam a Sanremo com o single e título do álbum em conjunto “Poesie clandestine”, uma canção em tom de pop latino que traduz um amor secreto e efêmero, inspirado na relação entre o Pequeno Príncipe e sua Rosa, de Antoine de Saint-Exupéry. A faixa incorpora ainda um tributo emocional a elementos da cidade natal: as cavernas e corredores de Napoli Sotterranea aparecem tanto na letra quanto na narrativa visual do videoclipe.
Mas é na noite dos duetos e covers que Lda e Aka 7even prometem acender o Ariston: os dois dividirão o palco com o icônico baterista e cantor napolitano Tullio De Piscopo, com quem farão uma versão especial de “Andamento lento”, clássico apresentado por De Piscopo no Festival de 1988. Para artistas tão jovens, cantar ao lado de uma figura assim não é só uma colaboração — é um encontro com a história da música italiana, um reframe do passado que ganha voz no presente.
Nos bastidores, Lda confessa a admiração: De Piscopo tem contado histórias de bastidores e memórias que soam quase literárias, relatos que ampliam o mito. Para ele, crescer ouvindo músicas de De Piscopo e de Pino Daniele transforma o dueto em rito de passagem. Aka 7even descreve a experiência das primeiras provas como “indescritível”: assistir De Piscopo tocar é uma aula de intensidade rítmica e presença cênica.
Sobre Poesie clandestine, os dois esclarecem que o termo “clandestino” foi escolhido para capturar a ambivalência do desejo: algo que seduz e ao mesmo tempo se sabe temporário, um refúgio que ao mesmo tempo instiga a fuga. A canção, portanto, não é uma simples declaração de amor, mas uma reflexão sobre a memória afetiva e a pulsão de eternizar o fugaz — como se a canção fosse um trecho de roteiro que tenta fixar um instante antes que ele se dissolva.
Escolher Napoli Sotterranea como cenário do videoclipe também tem um sentido simbólico: a cidade subterrânea, com suas camadas e segredos, funciona como metáfora perfeita para a protagonista da música — uma mulher misteriosa, sombria e, paradoxalmente, cheia de vida. Lda conta que, quando criança, estranhava que um lugar tão extraordinário não estivesse em todos os roteiros turísticos; agora, transformá-lo em referência cultural e cenário narrativo é um gesto de revalorização.
Encaro essa colaboração entre jovens artistas e uma lenda como uma cena que diz muito sobre nosso presente: o tempo da cultura pop é uma sobreposição de ecos, onde as gerações se revisitam e reciclam imagens. No caso de Lda e Aka 7even, o encontro com De Piscopo reescreve um fragmento do passado para que ele fale, com urgência e elegância, ao público jovem de hoje.
Sanremo será o palco onde essa pequena mitologia contemporânea ganha forma: dois nomes que representam a nova cena pop napolitana, um clássico que volta a respirar e uma cidade subterrânea que emerge das entrelinhas como personagem. O roteiro oculto da música italiana continua a se escrever — e eles estão no centro dessa nova cena.





















