O Festival de Sanremo 2026 muda o paradigma do espaço cênico: o novo palco do Teatro Ariston, assinado pelo cenógrafo Riccardo Bocchini, abandona a frontalidade tradicional para transformar fundo e plateia em um único organismo visual e sonoro. Não é apenas uma maquiagem estética; trata-se de uma redefinição estrutural pensada para integrar artistas, público e músicos num fluxo contínuo — como se o palco fosse um alicerce digital que sustenta camadas de inteligência.
O núcleo do projeto é um palco de 120 metros quadrados (15,50 m de largura por 9,50 m de profundidade) que rompe com as geometrias simétricas em favor de linhas quebradas e volumes assimétricos. «A asimetria — explica Bocchini — é a linguagem natural da música contemporânea, imprevisível e nunca estática». Essa escolha formal se reflete também na integração tecnológica: sobre a superfície são montados 250 metros quadrados de ledwall e 2.800 metros de fitas luminosas, totalizando mais de 200.000 pixels capazes de redesenhar o ambiente em tempo real, do preto absoluto ao branco total, em sincronia com cada nota executada.
Um elemento que concentra simbolismo e função é a escadaria motorizada com seus 13+1 degraus. Bocchini relata que o gesto foi testado em primeira pessoa: «Com um passo chega-se ao palco; descendo os outros 13, entra-se em cena». A escada deixa de ser apenas um recurso formal e vira ramificação de circulação, conectando níveis como vias de um sistema nervoso teatral.
Entre as mudanças mais significativas está a relocação da orquestra. Adeus à tradicional cova diante do palco: os músicos são distribuídos em três níveis — térreo, primeiro e segundo andar — para garantir a visão direta do maestro. O efeito é um abraço sonoro que envolve artistas e público, transformando a orquestra de elemento oculto em componente ativo da arquitetura cênica. A cenografia, aqui, funciona como infraestrutura que aproxima o espectador, colocando-o dentro do circuito sonoro.
No aspecto das imagens televisivas, a inovação vem da integração de câmeras diretamente na estrutura cênica. Em vez de operadores buscando ângulos entre a plateia, dispositivos embutidos na cenografia permitem enquadramentos a 360 graus, dinâmicos e surpreendentes. O diretor de fotografia Mario Catapano e o regista Maurizio Pagnussat trabalharam em sintonia com Bocchini para que cada elemento arquitetônico fosse simultaneamente moldura e ponto de captura — o palco torna-se um set cinematográfico a céu aberto, onde a cena e o ponto de vista são coordenados como camadas de uma rede.
Completam a solução um imponente cortinado motorizado de ledwall que se abre horizontalmente para revelar a escadaria e um proskenion assimétrico que se estende em três faixas para abraçar plateia e teatro, eliminando a distância entre artista e espectador. Em termos de infraestrutura, o projeto do Ariston trabalha sobre dois eixos: visibilidade (quem vê e como vê) e escuta (como o som é distribuído no recinto), integrados por um desenho que lembra uma planta de rede onde cada elemento comunica com o outro.
Do ponto de vista prático, as mudanças têm implicações operacionais e técnicas relevantes: sincronização entre iluminação, pixel mapping do ledwall, roteamento de sinais de áudio para múltiplos níveis da orquestra, e um sistema de captação de imagem que exige cabeamento embutido e protocolos de controle em tempo real. É um projeto que não se limita à cenografia: é uma arquitetura de sistemas que redesenha o fluxo de dados e energia do teatro.
Em suma, o novo palco do Ariston não é apenas um novo cenário; é uma camada de infraestrutura cultural pensada para o presente. Tem a ambição de integrar visual, som e imagem como componentes interdependentes — uma pequena rede urbana onde público, músicos e artistas deixam de ser pontos isolados para se tornarem nós de um mesmo sistema.






















