Cristina D’Avena continua a ser, na paisagem cultural italiana, muito mais do que uma voz: é um espelho coletivo de infâncias que atravessam gerações. Aos 60 anos — idade que ela recusa como categoria, preferindo a definição de “eterna criança” — a cantora que se tornou sinônimo das siglas dos desenhos animados fala com honestidade sobre fama, escolhas e saudade.
“Não tenho uma idade”, diz ela com a leveza de quem preserva um personagem vivo. “Sou como um personagem dos desenhos que eu canto.” E, com esse arquétipo, Cristina D’Avena traçou uma carreira que desafia o tempo: discos, programas, shows lotados e um público que a acompanha com ardor. “Nunca me fiz botox”, acrescenta, rindo, como se a naturalidade fosse parte do seu repertório artístico.
Em uma conversa aberta, que ganha contornos de confissão serena, ela revela episódios que fogem ao estereótipo fofo associado às suas canções. “Meu pai contratou uma guarda-costas para me controlar”, confessa — um gesto que mistura preocupação paternal, construção de um lugar de proteção e um sortimento de controle. A imagem desse guarda-costas não serve apenas como anedota: funciona como metáfora do dilema entre proteção e liberdade que acompanha artistas mirins ou jovens expoentes do entretenimento.
Sobre relações profissionais e pessoais, Cristina não evita temas sensíveis. Ela recorda com carinho a parceria e a perda de Alessandra Valeri Manera, sua amiga e autora com quem trabalhou por mais de quatro décadas. A morte de Manera deixou um vazio — “não é simples”, confessa — que revela como o trabalho de dublagem e adaptação de músicas para o universo infantil também é tecido de afetos duradouros.
No plano artístico, a cantora reafirma sua coerência: resistiu às tentativas de reposicionamento para um público “mais adulto” e escolheu permanecer fiel ao repertório que lhe deu identidade. “Me mantive alinhada ao que faço e nisso há paixão”, diz. Essa fidelidade rendeu frutos inesperados: o álbum Duets Forever – Tutti cantano Cristina reuniu cerca de quarenta artistas, de Annalisa a Loredana Berté, passando por Elisa e The Kolors, numa celebração que confirmou a universalidade de suas canções. “Loredana se emocionou ao cantar a sigla de Occhi di gatto — disse que eu lhe dei um pedaço de infância”, conta, com a doçura de quem testemunha a ressonância intergeracional.
Curiosamente, a narrativa pessoal também traz notas de desejo não realizado. Sobre maternidade, Cristina admite sem rodeios: “Os filhos? Eu os teria querido.” A afirmação carrega uma tonalidade de saudade e de escolhas que a carreira exigiu. Não há arrependimento recriminador, apenas uma constatação tranquila de rotas que não se cruzaram.
Outra ponte entre passado e presente é a amizade com músicos mais jovens: “Com Mirko dos Beehive nos falamos”, revela. Essa continuidade de diálogo entre gerações exemplifica o que chamo de “reframe da memória afetiva”: artistas contemporâneos resgatam e reinterpretam a tradição das siglas, transformando nostalgia em obra nova.
Por fim, a artista comenta a ambivalência de seu papel público. Em décadas em que a indústria rotulou o trabalho com as siglas como “de nicho” — por vezes excluindo-a de palcos e eventos —, Cristina D’Avena sentiu a dor do preconceito. Ainda assim, os concertos continuam a atrair milhares de pessoas, recordando que o que parece leve pode, na verdade, ser um arquivo emocional profundo: “Meus desenhos sempre permitiram sonhar, por algumas horas deixando os problemas de lado”, resume.
Como analista cultural, vejo em sua trajetória o roteiro oculto da sociedade: as canções infantis como atlas de memórias, a carreira como ilha feliz que recria a comunidade que a consome e a reinvenção como estratégia de sobrevivência cultural. Em um mundo que frequentemente busca festas efêmeras, a voz de Cristina D’Avena permanece como um eco duradouro — simples no timbre, complexo na função —, lembrando-nos que o entretenimento é sempre também uma forma de guarda de identidades.






















