Ditonellapiaga, nome de palco de Margherita Carducci, retorna à cena com um disco que funciona como um pequeno laboratório emocional e estético. Em Flash ela passeia das guitarras cruas de “Ti dirò” ao autotune exagerado de “Pazza di te“, abrindo espaço para pop, eletrônica e baladas: uma colagem sonora que diz muito sobre a fluidez dos gostos musicais atuais.
Aos 29 anos e com a experiência transformadora de ter sido lançada pelo festival de Sanremo em 2022 ao lado de Rettore, Ditonellapiaga encara o álbum como um exame de passagem — não apenas profissional, mas também identitário. “Cê é difícil de classificar”, poderiam dizer os rótulos; ela prefere não se limitar. “Hoje todo mundo ouve de tudo”, comenta, e isso dá ao trabalho um tom plural: não por estratégia, mas por impulso criativo.
No percurso da cantora romana há amizades artísticas que aparecem no disco — nomes como Gaia e Fulminacci — e um reconhecimento de que alguns ouvintes podem ter ficado apenas com o hit “Chimica”, sem escutar o resto. Ainda assim, a passagem por Sanremo foi um batismo intenso: “foi como ser uma mulher canhão”, diz, lembrando o impacto e a pressão que vieram junto com a visibilidade. A figura de Donatella Rettore foi determinante: afeto, torcida e conselhos para uma jovem artista que precisava se ancorar.
Entre transformações pessoais e profissionais, a cantora admite que a vida mudou: “antes eu era mais desiludida; agora sou mais positiva” — uma mudança que atribui a ajustes na vida privada e, sim, a um novo amor. A relação que descreve pede, acima de tudo, segurança emocional: um parceiro que a compreenda, que não precise ser famoso, mas que entenda o prazer que ela encontra no palco.
No videoclipe de “Tu con me hai chiuso“, ela surge vestida de noiva — gesto que a própria artista confessa ter sido um reframe da sua juventude cínica. Onde a Margherita do colégio teria reprovado, a artista adulta encontrou poesia e sentido no rito. A cena é mais do que estética: é um espelho do tempo e das contradições entre o privado e o público.
Um dos fios condutores da sua narrativa lírica é a maneira franca como fala sobre sexo. Não se trata de provocação vazia, diz ela, mas de um símbolo político: “O corpo da mulher sempre foi um pouco político”. Quando uma mulher fala de sua própria sexualidade, o olhar público muitas vezes reage com adjetivações pejorativas — “ok, você é uma ‘troia'” — um mecanismo que revela velhas censuras e uma moralidade residual.
Partindo desse ponto, Ditonellapiaga não se limita a exaltar o prazer; ela também aponta para os danos que certas letras podem causar. Aponta o dedo para parte do mundo do rap, que ainda convive com versos que normalizam a misoginia. Para ela, algumas composições não são apenas problemáticas esteticamente, mas socialmente nocivas — palavras que ecoam além do palco e moldam atitudes.
O álbum Flash surge, portanto, como um roteiro íntimo e coletivo: uma trilha que costura liberdade, ironia e crítica. Em tempos em que a música é ao mesmo tempo espelho e molde do comportamento, Ditonellapiaga prefere não apenas entreter, mas provocar pensamento — insistindo na ideia de que a canção pop também pode ser um pequeno manifesto.
Ao final, resta a imagem de uma artista em trânsito, entre a leveza e a contundência, que usa o palco para dialogar com um público que busca mais do que hits: busca reflexões. Ditonellapiaga deixou Sanremo sendo descoberta; agora, no limiar de um novo ciclo, ela convida a audiência a escutar com atenção o que há por trás das melodias: o roteiro oculto de desejos, tensões e escolhas que atravessam nossa contemporaneidade.






















