Pupo — Enzo Ghinazzi — revisita sua trajetória como quem recorta frames de um filme íntimo: manchas, cortes, reviravoltas e, no fim, uma cena de redenção. Em entrevista reeditada por ocasião do Festival de Sanremo, o cantor conta episódios que parecem sair de um roteiro tão cinematográfico quanto a própria carreira: perdas vertiginosas, um amor dividido e o triunfo tardio de quem caminha “no fio” da vida.
Com 70 anos prestes a chegar, Pupo olha para trás sem fingir suavidade. “Credei che morreri a 50 e me esfarrapei todo”, admite com a franqueza de quem já foi protagonista e anti-herói da própria história. A narrativa inclui um episódio contundente: a perda de 130 milhões de liras em uma única jogada de Chemin de Fer. Um tom dramático que não soa como confissão autobiográfica apenas — é também um exemplo do reframe social: o artista como espelho das contradições entre desejo e ruína.
O declínio financeiro teve capítulos sombrios. Ele recorda que, nos anos 1980, construiu em Ponticino um prédio em estilo de castelo com a ideia de transformá-lo em hotel. Gastou cerca de 2 bilhões de liras e, quando o projeto naufragou, restaram dívidas: “Zero. Me penhoraram até o piano e as guitarras”, lembra. A virada veio depois, numa narrativa de recuperação que ele chama de “minha revanche”: hoje realiza muitos concertos, prepara uma turnê mundial pelos 50 anos de carreira e recebe direitos autorais milionários, sobretudo graças a “Sarà perché ti amo“.
O retorno público tem seu festejo literal: uma grande festa em Ponticino com 2 mil convidados — e, no menu, a ironia do cotidiano: “panini ao presunto para todos”. É a imagem de um homem que reconstitui suas posses e, junto com elas, a sua voz social, provando que é possível se reerguer mesmo depois de uma queda que parecia sem volta.
Mas a biografia de Pupo não é só economia e contrato. Há episódios de tensão e conflito pessoal. Em 1983, quando o produtor Freddy Naggiar decidiu deixá‑lo de lado, Pupo confessa ter perdido a cabeça: “Fui lhe em cima e o bati. Quis o contrato de volta” — uma reação feroz que, anos depois, terminou em um pedido de desculpas do produtor. No palco de Sanremo, ele estreou em 1980 com “Su di noi“, chegando em terceiro — conta que esteve em primeiro pouco antes do anúncio final, até que interesses externos reordenaram o resultado.
No verso íntimo, Enzo desenha um desenho afetivo não convencional: vive em um ménage à trois, dividido entre a esposa Anna (com quem está casado há 51 anos) e a companheira Patricia (há 36 anos). Apesar da situação assumida, avisa: “Sou muito ciumento com Patricia”. Há, ainda, um comentário ácido sobre os Ricchi e Poveri, a quem atribui ingratidão porque, segundo ele, a composição “Sarà perché ti amo” ajudou a impulsionar a carreira deles.
Do romance impossível com Edwige Fenech ao sentimento de inferioridade ante figuras como Montezemolo, as confidências de Pupo desenham um retrato humano: falível, por vezes egoísta — “fiz sofrer muitos, infelizmente sou egoísta” — mas também determinado a atravessar as ruínas.
Como analista cultural, vejo em sua trajetória um microcosmo do que significa ser figura pública na Itália e além: a canção como narrativa coletiva, o escândalo como cena que alimenta a memória cultural, e a redenção como imagem confortadora num mundo que adora um recomeço. Pupo é, ao mesmo tempo, espelho do nosso tempo e personagem de um roteiro cujo último ato ainda está sendo escrito — e ele gosta de caminhar no fio, sem rede.
Esta entrevista foi originalmente publicada por Giovanna Cavalli em 9 de setembro de 2025 e republicada em função das celebrações de Sanremo, onde Pupo se apresenta em uma das noites dedicadas às cover.






















