Faltam horas para o início do Festival de Sanremo e o jogo já começou longe do palco — nas mesas dos bookmakers e nas narrativas que moldam a temporada. Segundo as previsões da Sisal, é a cantora barese Serena Brancale quem, de outsider, emerge como grande favorita: cotada a 3,50 para a vitória final. Ao mesmo tempo, Ermal Meta surge como provável vencedor do prêmio da crítica e do prêmio de melhor letra, com ambos oferecidos a 2,75.
Há algo de cinematográfico nessa ascensão: como num roteiro onde a protagonista reaparece no momento certo para dizer algo íntimo ao público, Brancale vai ao Ariston com uma balada contida, “Qui con me”, uma carta aberta dedicada à mãe que faleceu há seis anos. Para tornar a presença daquela ausência ainda mais tangível, ela anunciou que usará, na noite final, um dos vestidos da mãe — um gesto de memória que transforma figurino em artigo de família e cena em relicário.
O caso de Ermal Meta também carrega a densidade do contexto: nascido em Fier, na Albânia, e chegado a Bari aos 13 anos, Meta apresenta “Stella stellina”, canção dedicada a uma menina palestina. Há uma semântica forte em ambos os concorrentes: não se trata apenas de voz ou melodia, mas de proposições morais que reaparecem no repertório público, ecoando o que chamo de o roteiro oculto da sociedade.
Os números da Sisal não medem só probabilidades — medem temperatura cultural. Os especialistas da casa estimam que a primeira serata pode superar 63% de share (aposta oferecida a 1,44). O cenário mais ambicioso, porém não impossível, é ultrapassar os 65,1% registrados no ano anterior, um recorde que já superou as marcas de Amadeus e Fiorello.
À moda europeia de transformar espetáculos em campo de debate, o Festival aparece como um espelho do nosso tempo: canções que falam de perda, de migração, de solidariedade — e a audiência que responde em massa. Em termos práticos, a Sisal, presente no mercado há 80 anos, continua a mapear esse pulso público: suas odds traduzem, em números, o interesse emocional e a narrativa coletiva que cada canção carrega.
Do ponto de vista cultural, o que inquieta é o quanto Sanremo permanece um laboratório de afeto e memória pública. A escolha de uma artista como Serena Brancale, cuja performance é construída sobre a intimidade e o luto, revela uma preferência por um tipo de autenticidade que funciona como catalisador emocional — a canção como confessionário público. Ao mesmo tempo, Ermal Meta traz para o centro da arena uma canção com carga política e empática, lembrando que a música popular italiana continua a dialogar com o palco global e com questões humanitárias.
Nas próximas horas, o Ariston acenderá suas luzes e os números das casas de aposta serão reescritos em tempo real. Mas já está claro que o Festival, como sempre, não é apenas um concurso: é um palimpsesto onde memórias pessoais, narrativas nacionais e tendências internacionais se sobrepõem. E, nesse cenário de transformação, a balada íntima de Brancale e o hino empático de Meta oferecem ao público duas lentes distintas para ler o presente.
Em suma: Sanremo 2026 começa com um roteiro cheio de efeitos — e com uma protagonista cuja força dramática pode muito bem transformar a aposta em confirmação. A música, afinal, continua sendo o espelho em que a sociedade se reconhece ou se revisa.






















