Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde o entretenimento funciona como espelho do nosso tempo, Gianluca Gazzoli surge como narrador e catalisador: 36 anos, nascido em Vigevano em 18 de agosto de 1988, ele construiu um universo editorial que mistura intimidade e espetáculo. Reeditamos aqui a conversa publicada originalmente em 10 de fevereiro de 2025 por Federica Bandirali, em ocasião do Festival de Sanremo, onde Gazzoli subirá ao Teatro Ariston como apresentador das Nuove Proposte.
Quatro letras — BSMT — não são apenas o nome de um projeto: são a identidade de um porão criativo, um basement milanês que virou casa de um dos podcasts mais reconhecíveis da cena. Localizado perto da estação Central de Milão e guardado por um mistério quase ritual, o BSMT recebeu vozes que variam entre o esporte, a música, o cinema e a cultura pop: de Valentino Rossi a Andrea Bocelli, de Matt Damon a Ben Affleck, sem esquecer episódios emblemáticos como o com Selvaggia Lucarelli, eleito o mais ouvido em 2024.
Mas o BSMT é mais do que um palco de entrevistas; é um hub onde formatos se experimentam: a novidade de 2025, Le forme dell’amore, nasce nesse ecossistema — uma série de dez episódios com a creator e booktoker Rebecca Fierro que propõe um mergulho nos contornos do sentimento humano, disponível desde 14 de fevereiro.
No diálogo com Gazzoli, o que chama atenção é a forma como ele mistura autobiografia e curadoria: “Ao contar histórias dos outros, conto a minha”, diz ele. Há símbolos que atravessam essa narrativa: ele revela carregar uma pequena pedra — um topázio dado por um xamã durante uma viagem à Índia em 2012 — que hoje vive preso num bracelete e funciona como talismã nas gravações.
Entre confidências surpreendentes, Gazzoli não foge de temas íntimos e concretos: afirma ter um desfibrilador implantado no peito — uma informação que transforma sua história numa potência dramática e humana ao mesmo tempo — e colecionar cerca de 60 pares de sneakers, detalhe que desenha um perfil estético e quase cinematográfico, como se cada par fosse um figurino de si mesmo.
Sobre a exposição pública e as reações nas redes, sua leitura é sagaz: os haters, diz ele, são “um bom sinal” — não por masoquismo, mas porque a presença de crítica indica relevância, uma semiótica do viral que confirma o papel do criador como espelho e provocador. Essa visão enquadra sua atividade no roteiro oculto da sociedade: polêmicas, adesões e rejeições funcionam como feedback cultural.
O BSMT, portanto, opera como estúdio e arquivo afetivo, recheado de lembranças, objetos e presentes dos convidados — um museu privado onde as narrativas se cruzam e rebatem umas nas outras. Gazzoli conta com naturalidade e charme essa coleção de encontros, e faz de cada episódio um exercício de tradução entre o íntimo e o coletivo.
Enquanto se prepara para o palco de Sanremo, Gazzoli reafirma sua função de mediador cultural: não um comentarista superficial, mas alguém que reconstrói através das vozes alheias o mosaico de uma época. Em tempos em que o entretenimento é também política simbólica, sua trajetória — do porão secreto de Milão ao Ariston — é um roteiro de transformação: um convite a ouvir o outro como se estivéssemos vendo, pela primeira vez, o espelho da nossa própria história.
Gianluca Gazzoli permanece, assim, uma figura híbrida: curador, anfitrião, colecionador e, no fundo, um contador de afetos. Seu trabalho no BSMT não é apenas entretenimento; é uma proposta de escuta que revela as formas do amor, da memória e do presente.






















