Em uma conversa franca que parece saída de um roteiro íntimo, Tiziano Ferro revela os bastidores dos dois anos que viraram sua vida pessoal e artística de cabeça para baixo. Replicamos aqui a entrevista de Andrea Laffranchi, republicada em 2025, numa leitura que é ao mesmo tempo confissão e ensaio sobre identidade: Ferro é um dos convidados da primeira noite do Festival de Sanremo e lança um álbum que é, nas suas palavras, um mapa de “reconstrução”.
Desde o fim da turnê de 2023, Tiziano Ferro redesenhou a própria trajetória. Separou-se do marido, Victor Allen — com quem se casou em 2019 — e afirma ter a custódia, mas diz com firmeza que não pretende levar os filhos dos Estados Unidos, mesmo podendo. “Isso me faz viver em um lugar alienante, sem pontos de referência”, confessa, descrevendo uma geografia emocional que mais lembra um set vazio do que um lar confortável.
Na esfera profissional, houve igualmente um corte de cena: pela primeira vez em 25 anos ele mudou de manager e assinou com uma nova casa discográfica. A escolhida para conduzir essa nova etapa é Paola Zukar, conhecida pelo trabalho com artistas como Fibra, Marra e Madame, e o novo selo é a Sugar. As mudanças se refletem no álbum “Sono un grande”, lançado em 24 de outubro — um registro que, segundo o cantor, contém não apenas o “grande desastre” dos últimos dois anos, mas também passos de afirmação e reconstrução.
O disco transita entre cenas de término e cenas de ternura: faixas como “Quello che si voleva” desenham o fim de um amor como se fosse a cena de um crime, enquanto outros momentos celebram amizades sólidas, vínculos familiares complexos e uma autoanálise que foge do rancor. A palavra que retorna na entrevista é reconstrução: uma estratégia narrativa para transformar inseguranças em afirmações de vida.
Sobre o título provocador — Sono un grande — Ferro explica que nunca havia se dito isso antes. O que poderia soar como arrogância funciona como um mantra de terapia: “A psicanálise ensina que, quando você verbaliza algo, já começa a trabalhar em sua resolução.” Ele fala da educação familiar, que valorizava a dignidade na privação, e da libertação que veio ao colaborar com Roberto Casalino: a permissão para reconhecer o próprio mérito além da sorte.
Nos detalhes mais íntimos, o cantor relata ter passado por terapia de casal e sofrer episódios de ataques de pânico durante a maratona de shows. A cena que descreve — a psicóloga pedindo a cada um que diga algo bonito sobre o outro — soa como um quadro de cinema que revela mais do que redenção: revela a dificuldade de reconhecer a própria beleza interior. Ele confessa que deveria ter dito algo bonito a si mesmo antes, talvez durante o tour de 2023, quando muitos o aconselhavam a parar por causa dos sintomas.
O caminho de Ferro, então, tem muito daquilo que chamamos de “reframe” cultural: a sua trajetória pessoal torna-se espelho do tempo, mostrando como a visibilidade pública convive com fragilidades privadas. O álbum funciona como um roteiro oculto da sociedade, onde a vulnerabilidade vira dispositivo estético e histórica pessoal se transforma em canção coletiva.
Além do registro íntimo, há planos concretos: a turnê começa em 30 de maio, em Lignano, com uma série de shows em 12 estádios — uma escala que reafirma sua presença enquanto artista-pop e figura pública. Ferro não busca, porém, um final feliz já pronto; prefere a sinceridade do processo, mesmo que ainda em andamento. É essa honestidade que, no fim, dá ao disco a densidade de quem conta uma história para poder vivê‑la de novo, com outros olhos.
Como observadora cultural, confesso: a narrativa de Tiziano Ferro é um espelho do nosso tempo — onde fama, saúde mental e escolhas íntimas compõem uma mise-en-scène que merece ser vista com compaixão e inteligência. O seu novo álbum não é apenas um produto de mercado; é um documento emocional, uma tentativa de filmar a si mesmo em reconstrução.






















