Por Chiara Lombardi — Em 29 de janeiro de 1951, uma voz pela rádio anunciou ao país o início de algo que, ao longo das décadas, se transformaria num espelho cultural da nação. «Signore e signori, benvenuti al Casinò di Sanremo…» — assim começou a primeira edição do que hoje chamamos de Festival de Sanremo. À frente do microfone estava Nunzio Filogamo, cujo bordão no ano seguinte, «Miei cari amici vicini e lontani, buonasera, ovunque voi siate», entraria para a memória coletiva.
A história do festival, no entanto, tem raízes que remontam ao imediato pós-guerra. Em 1945, o Comitê de Libertação Nacional procurou o ex-partigiano sanremense Amilcare Rambaldi com uma missão pragmática: pensar em iniciativas para reativar uma economia local devastada. Rambaldi apresentou várias propostas — de desfiles de moda a torneios de bridge — e incluiu a ideia de um concurso de canções. Essa aposta cultural, nascida entre ruínas e expectativas de reconstrução, já carregava consigo o gesto simbólico de transformar a cultura num motor de recuperação.
O impulso inicial encontrou resistência: o comitê do Casino de Sanremo rejeitou a primeira proposta, e, na esteira, surgiu uma experiência irmã em Viareggio (1948), que, apesar do sucesso momentâneo, encerrou-se em 1950 por falta de fundos. Foi preciso o encontro de vontades entre o diretor do cassino, Pier Busseti (o empresário por trás da iniciativa), Angelo Nicola Amato e o autor radiofônico Angelo Nizza para resgatar a ideia e convertê‑la num evento de inverno — uma escolha estratégica para atrair visitantes fora da temporada balneária.
No Salone delle Feste do Casino, entre mesas de café-chantant e garçons fardados, um público limitado e elegante assistiu às primeiras edições, pagando bilhetes de 500 liras que incluíam jantar e espetáculo. As vinte composições selecionadas foram transmitidas «in presa diretta» pela rádio, e o rito sonoro começou a se entalhar na paisagem auditiva italiana.
O festival, contudo, não permaneceu apenas um evento musical: em 1955 a televisão se apropriou do formato, projetando Sanremo para a centralidade nacional e, assim, acentuando seu papel de parâmetro de gosto, representação e debate público. Em 1961 houve momentos controversos — como quando Adriano Celentano virou as costas ao público — lembrando que o palco de Sanremo sempre foi uma arena de tensões entre imagem, espetáculo e políticas culturais.
Rambaldi, por sua vez, voltaria a influenciar a cena musical anos depois, ao idealizar em 1974 o Prêmio Tenco, reafirmando a trajetória de quem viu na canção um território de invenção social e memória.
O que faz do Festival de Sanremo mais do que um concurso? É a sua capacidade de funcionar como metáfora — e como espelho — das mutações italianas. Nasceu como ferramenta de reativação econômica e tornou-se palco de disputas estéticas, políticas e identitárias. Como num filme cuja primeira cena parece modesta mas condiciona todo o roteiro, Sanremo redesenha a narrativa coletiva: do rádio ao televisor, do cassino às praças, a canção serviu de lente para entender os desejos, as contradições e as projecções de uma Itália em transformação.
Hoje, revisitar essa origem é exercer uma arqueologia cultural: desenterrar as escolhas — por estação, palcos, aparatos institucionais — que transformaram uma ideia prática em símbolo duradouro. E lembrar que, no seu começo, havia partigiani, economistas locais e um impulso concreto de reconstrução. Sanremo não nasceu apenas para entreter; nas suas primeiras notas já havia a ambição de narrar e formatar um país que procurava ouvir a si mesmo.






















