Por Marco Severini – Espresso Italia
Quatro anos após o início da guerra em grande escala, a Ucrânia mantém uma estabilidade que me atrevo a chamar de precária: um equilíbrio sustentado sobretudo por fluxos externos de financiamento e por medidas de emergência que sustentam o funcionamento do Estado. No tabuleiro geopolítico, trata-se de um movimento defensivo, sustentado por aliados, que adia o colapso mas não resolve os desafios estruturais.
O pilar imediato dessa estabilidade é o pacote de apoio acordado pela União Europeia (UE): um empréstimo político da ordem de 90 bilhões de euros destinado a garantir liquidez e serviços básicos nos próximos dois anos. Complementa esse esforço o Fundo Monetário Internacional, que compromete 8,1 bilhões de dólares a serem desembolsados ao longo de quatro anos. Sem esse suporte, o alicerce financeiro do país simplesmente não resistiria à tensão contínua.
Contudo, esses socorros não mascaram uma realidade inquietante. O FMI revisou para baixo a previsão de crescimento do PIB deste ano, de 2% para 1,8%, reflexo direto das consequências dos ataques russos ao sistema de energia. Desde o início do ano, uma nova onda de raids ampliou a degradação da capacidade de geração elétrica, impondo cortes prolongados e a necessidade de programar blecautes para racionar o fornecimento.
O padrão é conhecido: após a queda dramática de 29% em 2022, a economia ucraniana registrou um forte efeito de rebound — crescimento de 5,3% em 2023 e de 2,9% em 2024 — que agora começa a arrefecer. Analistas de investimento e consultorias locais, como o GMK Center, apontam que o país ainda não conseguiu identificar novos motores de crescimento capazes de replicar a dinâmica de 2023. A escassez de mão de obra, provocada pela mobilização militar e por ondas de emigração, reduz a capacidade produtiva e impõe limitações duradouras.
Há, todavia, elementos que evitam um cenário de colapso imediato: inflação relativamente contida, consumo privado ainda resiliente e políticas públicas de apoio a empresas e investidores. A expansão contínua da indústria de defesa e a solidez do setor agrícola são âncoras adicionais. Mas tudo isso depende, em última instância, da continuidade dos fluxos financeiros externos.
O próprio pacote de 90 bilhões de euros enfrenta riscos políticos. Um potencial veto de Budapeste condicionaria a liberação dos fundos a contrapartidas relativas ao trânsito de petróleo russo para a Hungria — um exemplo eloquente de como interesses bilaterais e jogos de influência podem impactar a estabilidade financeira de um país sob ataque. No plano europeu, a solução adotada para viabilizar o empréstimo foi a emissão de novo endividamento, em vez da realocação imediata de fundos existentes.
Em resumo, a economia ucraniana sobrevive por uma complexa arquitetura de apoio externo e medidas domésticas de emergência. Mas esse equilíbrio é frágil: sem um rearmamento das bases produtivas, sem novas fontes de investimento e sem segurança física das infraestruturas críticas, a recuperação permanecerá estagnada. No grande tabuleiro, a Ucrânia ganha tempo; a questão é transformar esse tempo em oportunidades concretas de reconstrução e resiliência — um movimento decisivo que exigirá coordenação estratégica entre Bruxelas, Kiev e os principais aliados.






















