Por Marco Severini, analista sênior em geopolítica
Em um movimento calculado no grande tabuleiro europeu, a presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, desembarca em Kyiv na vigília do quarto aniversário da invasão russa, acompanhada pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa. A visita é mais do que protocolo: é um sinal estratégico dirigido tanto à opinião pública europeia quanto aos corredores do poder em Moscou e Washington.
Segundo nota oficial da Comissão, desde a ofensiva russa de 2022 a UE canalizou um total de 194,9 bilhões de euros em apoio à Ucrânia. Deste montante, cerca de 70 bilhões destinaram-se a ajuda militar, compondo um pilar essencial da defesa ucraniana. Além disso, a proposta de empréstimo de 90 bilhões de euros — resultante do acordo do Conselho Europeu — foi desenhada para assegurar continuidade do apoio financeiro em 2026 e 2027.
Esse suporte financeiro integra um desenho maior de segurança, onde emerge o novo instrumento europeu de defesa, o Security Action for Europe, dotado de 150 bilhões de euros. Trata-se de um alicerce financeiro que visa consolidar capacidades e projetos conjuntos — 19 Estados-membros já integraram iniciativas conjuntas com a Ucrânia em seus planos de defesa, um exemplo de realpolitik onde a arquitetura de segurança é redesenhada na prática.
No plano energético, a Comissão destaca quase 3 bilhões de euros destinados à segurança energética da Ucrânia. Com o inverno reacendendo riscos humanitários, foram mobilizados mais de 900 milhões para compras emergenciais de gás, enquanto a capacidade de exportação de eletricidade da UE para Kyiv opera no nível máximo. Até o momento, Bruxelas também entregou mais de 157.000 toneladas de ajuda humanitária, incluindo cerca de 1.000 geradores apenas no último mês — ativos críticos para manter hospitais e infraestrutura básica em funcionamento.
Na agenda de Kyiv, Von der Leyen e António Costa participarão da cerimônia oficial de lembrança dos quatro anos de conflito, visitarão uma infraestrutura energética danificada por ataques de mísseis e se encontrarão com o presidente Volodymyr Zelenskyy. Está prevista ainda uma reunião da Coalition of the Willing, , um fórum que reúne 35 países e reafirma o compromisso coletivo em garantir uma paz duradoura e a segurança europeia.
Complementando a delegação, o comissário para Energia e Habitação, Dan Jørgensen, acompanhará a presidente durante a viagem. As comissárias responsáveis pela Defesa e pelo Alargamento, Andrius Kubilius e Marta Kos, têm visitas programadas a Kyiv para a próxima semana, numa cadência que reflete a prioridade estratégica da missão.
Do ponto de vista do tabuleiro geopolítico, a ação da União Europeia combina medidas imediatas — assistência energética e militar — com movimentos estruturais de longo prazo — instrumentos financeiros e projetos de defesa integrados. É um jogo de múltiplas frentes: proteger o presente de civis e infraestruturas, ao mesmo tempo em que se moldam os alicerces de uma ordem europeia mais resiliente diante da tectônica de poder regional.






















