Marco Severini — A guerra na Ucrânia representa um movimento tectônico no tabuleiro das estratégias militares: a transição de um conflito de matriz quase bélica do século XX, assentado em colunas blindadas e linhas de trincheira, para uma guerra dominada por drones, inteligência artificial e guerra eletrônica. Esse redesenho não é apenas tecnológico; é um reposicionamento dos alicerces da diplomacia e da capacidade industrial que define novos e invisíveis eixos de influência.
Da ofensiva convencional à guerra de atrito
Na fase inicial, após a invasão de 24 de fevereiro de 2022, o cenário foi dominado por movimentações de forças convencionais: colunas blindadas, artilharia pesada, e o emprego de mísseis balísticos e de cruzeiro. Moscou fez uso extensivo de sistemas como os Iskander e os Kalibr, lançados do Mar Negro, visando infraestrutura crítica e nós logísticos. Em resposta, Kiev contou com fornecimentos ocidentais de armas anticarro portáteis, notadamente os Javelin e os NLAW, que frustraram avanços em múltiplos vetores, inclusive em direção à capital.
A consolidação do front e a ascensão dos sistemas não tripulados
Com o estabilizar da linha de frente no Donbass, o conflito evoluiu para uma guerra de atrito, caracterizada por massivo emprego de artilharia convencional e sistemas de longo alcance. A chegada dos lançadores de foguetes múltiplos HIMARS permitiu às forças ucranianas atingir depósitos e retaguardas russas com maior precisão. Paralelamente, ocorreu uma aceleração do uso de UAV (veículos aéreos não tripulados) tanto para reconhecimento quanto para ataque.
O aporte russo incluiu o emprego em larga escala dos drones suicidas de fabricação iraniana, os Shahed-136, destinados a saturar as defesas aéreas ucranianas e a golpear infraestruturas energéticas. Do lado ucraniano, a adaptação e produção local de drones comerciais e de ataque improvisados cresceram exponencialmente em 2023 e 2024. A proliferação dos drones FPV (First Person View), pilotados com óculos que transmitem imagens em tempo real, tornou possível ataques de alta precisão por equipes reduzidas, reduzindo a cadeia de comando e acelerando os ciclos de operação.
Marinha, inteligência espacial e redução dos tempos de decisão
Uma inovação estratégica foi a emergência dos drones navais, empregados por Kiev para afetar unidades da frota russa no Mar Negro. Em um teatro tradicionalmente dominado por forças convencionais, esses sistemas abalaram equilíbrios e demonstraram a eficácia de plataformas assimétricas sobre a linha de água.
A integração entre inteligência espacial ocidental, sistemas de pontaria digital e plataformas não tripuladas reduziu drasticamente a janela entre detecção e engajamento, tornando o campo de batalha mais letal e dinâmico. Ao mesmo tempo, ambas as partes investiram pesadamente em guerra eletrônica para perturbar comunicações e sinais GPS, numa competição tecnológica que se renova quase semanalmente.
Consequências estratégicas e lições para a estabilidade global
Do ponto de vista da geopolítica, a Ucrânia funciona hoje como um laboratório operacional para a guerra do futuro. A massificação dos drones baixou a barreira tecnológica de ataque em profundidade, mas também elevou a exposição das retaguardas civis e da infraestrutura crítica. O resultado é uma mudança estrutural: menos dependência de massa blindada e mais ênfase em cadeias de suprimento, ciberdefesa, guerra eletrônica e capacidade industrial de produção em série de pequenos sistemas não tripulados.
Como analista que observa o tabuleiro com lentes de cartografia e arquitetura estratégica, vejo movimentos decisivos e riscos simultâneos. A difusão de tecnologia entre atores estatais e não estatais, a internacionalização de fornecedores (como o caso da tecnologia iraniana) e a resposta ocidental em inteligência e armamento configuram um redesenho de fronteiras invisíveis — novas linhas de influência e dependência que moldarão alianças e dissuasão nos anos vindouros.
Em suma, a guerra na Ucrânia não é apenas uma série de confrontos; é uma prova de resistência industrial, inovação tática e resiliência estratégica. Quem controlar a cadeia de produção, o fluxo de informação por satélite e a arquitetura de defesa eletrônica terá vantagem decisiva no próximo capítulo da arte da guerra.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise e estratégia internacional.






















