O tabuleiro estratégico no Oriente Médio revela um movimento de peças de grande alcance: o amplo dispiegamento de forças aéreas, navais e terrestres em torno do Irã sugere que um ataque americano a Teerã está preparado e pode ser iminente. A conjugação do posicionamento da frota da Marinha dos EUA, manobras em bases terrestres, disponibilidade de pessoal e os voos de carga de reabastecimento desenha um quadro claro de efeito de cerco, que se estende do Mediterrâneo Oriental ao Golfo Pérsico.
Na ótica da tectônica de poder, trata-se de um arranjo logístico e operacional que só se alcança com tempo e coordenação. Como observa o general Vincenzo Camporini, ex-chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (2006-2008) e da Defesa (2008-2011), “o dispiegamento de forze messo in atto è tatticamente complesso, per completare il quale ci vuole tempo… già da oggi, credo, il posizionamento può essere tale da garantire uno strike. Si tratta soltanto di capire se e quando” — ou, em termos diplomáticos, as peças podem estar em posição sem que a jogada final seja necessariamente executada.
Camporini ressalta uma distinção estratégica essencial: mover as unidades no tabuleiro não obriga o comandante a consumar o ataque. “Se muovo le mie pedine, poi non sono costretto a usarle”, disse o militar, sublinhando que o atual dispositivo aumenta sobretudo a incerteza — um elemento útil na guerra da dissuasão, mas também potencialmente perigoso pela escalada involuntária.
O Wall Street Journal reportou que a armada de Trump atingiu níveis de concentração de forças não vistos desde a guerra do Iraque em 2003. Aquela campanha prolongada serve como aviso: a dimensão das forças não determina por si só a duração do conflito; a variável decisiva é a vontade política. Camporini é categórico: a duração de uma operação depende das intenções políticas de quem comanda — e, neste momento, cabe a Donald Trump a decisão final.
Os movimentos logísticos confirmam que os Estados Unidos se preparam não só para um ataque rápido, mas também para operações que possam se estender no tempo. Nas últimas semanas, foram detectados voos de reabastecimento e cargas com material de suporte para bases e outros meios militares no Médio Oriente. Esta cadeia de suprimentos é o alicerce de qualquer campanha duradoura. “Un’operazione militare ha successo non solo se le forze in prima linea sono adeguate, ma anche se la catena logistica è stata predisposta in modo opportuno”, lembra o general, recordando que o fracasso russo na Ucrânia teve, entre várias causas, uma logística insuficiente — a imagem da longa coluna de veículos sem combustível permanece como exemplo de planejamento falho.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de avaliar duas dimensões: a operacional — já em curso — e a política — ainda em definição. O posicionamento naval e aéreo cria a condição técnica para um strike, mas o gatilho dependerá da leitura do risco político e diplomático em Washington. Em termos de cartografia do poder, assistimos a um redesenho de fronteiras invisíveis, com linhas de influência sendo restabelecidas por meio de presenças militares.
Há precedentes que ajudam a compor o cenário: no início da invasão russa da Ucrânia, o uso de helicópteros de assalto foi uma das táticas empregadas nas fases iniciais; em outros teatros, meios aéreos e logísticos similares foram mobilizados para operações rápidas. A lição é clara para quem planeja: campanhas complexas exigem não apenas superioridade temporária, mas também robustez logística e clareza de objetivos políticos.
Como analista e diplomata da informação, avalio que estamos diante de um movimento deliberado de demonstração de poder — uma arquitetura militar montada para oferecer opções, não para ditar resultados. O cenário, porém, é frágil: a incerteza que atravessa as decisões estratégicas pode tornar qualquer passo um movimento decisivo no tabuleiro. Resta agora aguardar a decisão de Trump, cujas intenções políticas permanecerão o fator determinante para transformar posicionamento em ação.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise estratégica e geopolítica.






















