Carlo Mornati, secretário-geral do CONI e ex-remador prata em Sydney 2000, traça um diagnóstico preciso do que está por trás do desempenho histórico da delegação italiana nos Jogos de Inverno 2026. Em entrevista ponderada, ele associa resultados a um sistema, identifica fragilidades estruturais e aponta sinais de renovação numa equipe que, apesar de veterana em parte, mostra profundidade.
Para Mornati, não se trata apenas de picos individuais de brilho: existe uma engrenagem formada por Comitê Olímpico, federações, centros médicos e de pesquisa que potencializou o rendimento. O secretário-geral recorreu a indicadores para sustentar a leitura: o chamado índice olímpico — um algoritmo que mede competitividade — subiu de 6,58 para 7,15 ao longo dos jogos, um salto que, em 19 dias, confirmou o que ele já previra em outubro, quando afirmou que a equipe seria a mais forte da história italiana em Olimpíadas de inverno.
Os números que Mornati fornece ajudam a entender a consistência do desempenho: 70 presenças em finais em 106 provas e, somando colocações entre quarto e oitavo lugar, um total de 94 finalistas (dados apurados na manhã de 21 de fevereiro). Ele lembra ainda que a avaliação pré-jogos incluía um ficheiro com 63 hipóteses de pódio plausíveis — informação que serve para refutar leituras superficiais que atribuem sucesso apenas ao acaso.
No núcleo deste modelo, segundo Mornati, está a atenção aos detalhes operacionais: a criação de estruturas paralelas aos vilarejos olímpicos — muitas vezes em hotéis — para ganhar eficiência; e um nível de apoio por atleta que ele define como superior ao de muitos países concorrentes. Um dado concreto ilustrativo: a delegação contou com 168 officials ao todo, número que, segundo ele, superou o de todas as demais delegações; uma diferença que já havia sido percebida em Paris, onde Mornati calculou uma relação de apoio que favorecia a Itália em termos de recursos por atleta.
Nem tudo, porém, é motivo de celebração. O dirigente sublinha dois pontos críticos que continuam a incomodar o sistema esportivo nacional: a escola, que pouco estimula a prática esportiva, e a carência de infraestrutura adequada. Há ainda um elemento demográfico que preocupa: a baixa natalidade, definida por Mornati como verdadeira espinha dorsal que limita o futuro do recrutamento de talentos.
Sobre a composição do plantel, o secretário-geral admite que muitos veteranos cogitam o adeus, mas ressalta que existe um processo de recambio: “o ricambio c’è”, disse, numa forma enxuta de apontar que a transição geracional está em curso. Além disso, os recentes resultados — incluindo o ouro e a prata no skicross, obtidos após as declarações iniciais — reforçam a ideia de que o plano técnico e logístico foi bem calibrado e capaz de converter oportunidades em medalhas.
Como analista com olhar histórico, lembro que sucessos esportivos raramente nascem apenas da genialidade individual; são a tradução de consensos institucionais, investimentos e de uma cultura que tutela o atleta além do treinamento. A leitura de Mornati confirma essa visão: a Itália de 2026 nos pódios é fruto de um projeto coletivo, ao mesmo tempo vitorioso e vulnerável — vitorioso pela organização, vulnerável pelas falhas no ensino, nas instalações e na base demográfica.
O desafio, portanto, não é celebrar e esquecer. Exigir manutenção do investimento, políticas públicas que integrem escola e esportes, e planos de curto e longo prazo para infraestrutura e formação serão as tarefas que definirão se esta geração será uma exceção carregada de brilho ou o início de um ciclo sustentável. Mornati oferece os dados; cabe às instituições tratar os sinais com a seriedade que merecem.






















