Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
No final da noite que encerrou as competições masculinas, o Galà de Assago assumiu o papel de arena onde se medem não apenas técnicas e saltos, mas também narrativas públicas de queda e recuperação. Foi ali, sob as luzes mais amenas de um espetáculo que costuma funcionar como o “último dia de escola” do patinagem artística, que Ilia Malinin voltou ao gelo depois da final olímpica que lhe reservou um inesperado e doloroso oitavo lugar.
O jovem americano de 21 anos — apelidado pela imprensa mundial de “o deus dos quadrupli” pela audácia e frequência dos saltos de quatro rotações — escolheu uma composição simples e simbólica para essa reaparição: um par de jeans e uma felpa, trajes improváveis para o esporte, articulando uma imagem de informalidade que contrastava com a formalidade e a pressão de uma Olimpíada. Sobre a música de “Fear“, Malinin executou saltos de elevada limpeza técnica, ainda que marcados por expressões faciais que revelavam um entrelace de dor, frustração e vontade de virar a página.
O episódio mais íntimo do evento ficou para o momento da final: imagens amplamente divulgadas mostraram o atleta ao final da competição, com as mãos do pai-treinador na cabeça, e o próprio Malinin sussurrando desculpas. Essa cena — privada e pública ao mesmo tempo — pareceu seguir o patinador até o gelo do Galà, onde a plateia, sensível à dimensão humana do fracasso e à coragem da reinvenção, reagiu com uma sentida standing ovation. Malinin não conteve as lágrimas diante do reconhecimento: um gesto pequeno, mas que ressignificou o final abrupto da sua Olimpíada.
O espetáculo foi aberto por Carolina Kostner, cuja presença no gelo e a escolha de “Moon Lake” como trilha confirmaram que o Galà também é lugar de memória, trajetória e reconciliação entre gerações do patinagem. A imagem do público de pé, aplaudindo um jovem que havia saído do pódio em condições inesperadas, falou tanto sobre o discurso esportivo dominante — do culto à vitória — quanto sobre a necessidade contemporânea de reconhecer o atleta como sujeito exposto às pressões de espetáculo e expectativa coletiva.
Em termos simbólicos, a escolha do jeans por Malinin pode ser lida como um pequeno ato de subversão: uma recusa à fantasia competitiva e um gesto de humanidade crua, que lembra ao público que o patinador é, antes de tudo, uma pessoa em processo. No dia 21 de fevereiro de 2026, naquela arena em Assago, o que se viu não foi apenas uma série de elementos técnicos, mas a composição de uma narrativa maior — sobre juventude, falha e a lenta tarefa de recuperar a própria imagem pública.
Para além do espetáculo, resta a pergunta que interessa ao historiador do esporte: como episódios como este serão registrados na memória coletiva do patinagem e que impacto terão nas trajetórias futuras de atletas acostumados a transitar numa linha tênue entre genialidade e exaustão? A resposta, como sempre, depende do tempo e das escolhas subsequentes do próprio Malinin.
Publicado em 21 de fevereiro de 2026




















