Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Quando a cerimônia de encerramento aponta para a última partida, o que deveria ser sobretudo um desfecho esportivo transforma-se em espelho das tensões que atravessam duas nações irmãs. O clássico da final de hóquei entre Estados Unidos e Canadá — anunciado como fechamento dos Jogos Olímpicos — assume, agora, contornos que ultrapassam o gelo: é o capítulo mais visível de uma longa rivalidade geoeconômica.
As imagens mais apropriadas para entender essa relação rastejam entre citações históricas e pequenas feridas cotidianas. John F. Kennedy já disse, em 1961, que geografia, história e economia haviam unido tão intimamente as duas margens do continente que o homem não deveria separá-las. Pierre Trudeau, em 1982, comparou a proximidade a dormir ao lado de um elefante; Joe Biden, mais recentemente, lembrou com ironia o carinho — exceto pela preferência clubística nos Leafs — que marca laços familiares entre os povos.
Mas o que parecia uma convivência de vizinhança cordial ganhou fôlego novo nos anos recentes. Há diferenças estruturais reais — da tolerância às armas nos EUA ao sistema público de saúde no Canadá, passando por políticas educacionais e por visões distintas sobre intervenções militares. Há também interesses econômicos e territoriais, do Ártico às indústrias madeireira e energética, que escavam discordâncias menos visíveis ao olhar superficial.
Foi nesse terreno que a chegada de Trump à cena política internacional atuou como acelerador. Suas declarações públicas e iniciativas, muitas vezes colocadas sob o signo do choque e do interesse nacional prioritário, reacenderam ressentimentos e suspicácias. A frase atribuída ao presidente — que acusa o Canadá de “se aproveitar” dos EUA — sintetiza um estado de espírito que autoriza a leitura política do duelo esportivo: o gelo deixa de ser apenas espaço de competição atlética e passa a ser palco simbólico de uma disputa por prestígio, recursos e narrativa pública.
O que está em jogo, portanto, não é só uma medalha. É a capacidade de um país reafirmar-se como potência cultural e simbólica; de outro, de resistir à assimetria de influência; e de ambos, de negociar imagem e memória diante de uma audiência global. Que um evento como a final de hóquei seja transmitido ao vivo para o mundo é prova de quanto o esporte contemporâneo está entrelaçado com diplomacia, economia e comunicação.
Para o observador atento, a partida serve como um termômetro. Revela o estado das instituições esportivas, a maneira como federações e parlamentos reagem à politização, e como as torcidas — urbanas e identitárias — reinterpretam símbolos em função de contextos mais amplos. Estádios e arenas, aqui, voltam-se à função clássica: lugares onde se negocia coletivamente a identidade.
Ao final, o que permanecerá nos livros de história será menos o resultado numérico e mais o que o confronto expôs: uma amizade complexa, tensionada por interesses divergentes e por uma política externa cada vez mais performativa. Seja qual for o placar, a final do derby da América deixa claro que, nestes tempos, o esporte continua a ser um espelho privilegiado das contradições que moldam as nações.




















