Encerram-se em Milão-Cortina os Jogos de Inverno de 2026 com uma combinação de tradição, tensão e performances que dizem muito sobre o lugar do esporte na Europa contemporânea. Na reta final, três narrativas se destacam e ajudam a explicar por que estas Olimpíadas serão lembradas mais pelo seu simbolismo do que por um simples quadro de medalhas.
Hóquei no gelo: a final masculina entre EUA e Canadá retomou, com violência e técnica, uma rivalidade que transcende fronteiras esportivas. Aos olhos de quem observa da Europa, é difícil captar em toda a sua profundidade o significado do duelo: trata-se de uma disputa cultural e histórica, com raizes profundas no tecido social dos dois países. Em Milão-Cortina, os Estados Unidos abriram o placar quando Boldy acelerou e converteu a oportunidade numa finalização precisa — resultado provisório de 1-0. A partida teve momentos de superioridade numérica para os norte-americanos, que não conseguiram, porém, ampliar o marcador durante um power play de dois minutos. É também relevante comentar a diferença de tratamento do combate físico em pista: na NHL o confrontar-se se resolve muitas vezes em dois minutos de penalidade; na Olimpíada, um fight resulta em expulsão. Essa regra confere outro tempero ao embate e limita a espetacularidade bruta, favorecendo a estratégia e a disciplina tática.
Curling feminino: a final entre Suécia e Suíça chegou ao último end em perfeita paridade, testando nervos e precisão. A Suíça conquista a medalha de prata ao perder no último arremesso do jogo — um desfecho que sintetiza a natureza do esporte: milímetros e decisões instantâneas decidem memórias e calendários esportivos.
Bob a 4: a Alemanha confirmou sua tradição no gelo, com a equipe guiada por Lochner levando o ouro. A Alemanha 2 ficou com a prata e a Suíça 2 assegurou o bronze. A equipe italiana, composta por Patrick Baumgartner, Lorenzo Bilotti, Eric Fantazzini e Robert Gino Mircea, terminou em quinto lugar — um resultado que, embora distante do pódio, revela a competitividade crescente do programa italiano no bobsleigh. A prova teve ritmo variado: inicialmente algumas equipes menos cotadas surpreenderam, como a Áustria que liderou após os primeiros 12 percursos, mas os conjuntos mais fortes impuseram-se nas descidas decisivas. A esquadra italiana foi sólida, mantendo-se numa posição que garantiu, desde as primeiras partes, ao menos o quinto lugar final.
Halfpipe e esqui livre: a dobradinha chinesa marcou a competição feminina no halfpipe. Gu — que soma agora seis medalhas entre Pequim e Milão-Cortina — subiu ao degrau mais alto, seguida pela compatriota Fanghui Li. A britânica Zoe Atkin conquistou o bronze. A sequência da atleta chinesa confirma um processo de profissionalização e investimento que transformou o país numa potência em modalidades urbanas e de freestyle.
Entre performances individuais e duelos coletivos, Milão-Cortina 2026 deixou claro que o esporte de inverno europeu está em transição: novas potências emergem, velhas tradições se renovam e as arenas — de Cortina aos rinques italianos — permanecem como palcos onde se encenam não só vitórias, mas afirmações de identidade nacional e ambições institucionais.
Ao fechar estes Jogos, fica a sensação de que o legado esportivo não se resume a medalhas, mas à capacidade de clubes, federações e cidades de transformar eventos em memória coletiva — e de usar a competição como laboratório de políticas públicas, formação e memória.
Atualização ao vivo: a partida de hóquei entre EUA e Canadá segue sendo disputada.






















