Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No Bluenergy Stadium de Udine, a experiência do dia de jogo deixou de ser apenas um rito esportivo para transformar-se em um espaço de encontros empresariais, culturais e gastronômicos. A presença da família Scarello, com Emanuele Scarello e sua irmã Michela, recoloca o estádio como palco de uma performance civil além do resultado em campo: ali a refeição torna-se extensão da narrativa do clube.
Desde setembro de 2014 a área de hospitality do clube passou a ocupar uma posição estrutural no modelo bianconero. O que antes poderia ser visto como um serviço extra de catering ganhou arquitetura própria: President Club, Sky Box e Executive Club oferecem fórmulas adaptáveis — buffets antes, durante e depois da partida, almoços e jantares servidos à mesa, espaços pensados para empresas, reuniões e networking. É nesse contexto que o restaurante assinado por Emanuele Scarello, do histórico Agli Amici 1887 de Godia, passa a atuar como facilitador de relações, e não apenas como provedor de pratos.
O ponto central da proposta é simples, mas exigente: transferir para o estádio a mesma ideia de experiência que define o restaurante em Godia. Para Scarello, «o futebol, como a restauração, é um jogo de equipa: o talento individual conta, mas é a força do grupo que faz a diferença». Essa leitura, que une estética e operacionalidade, explica por que a cozinha deixou de ser apenas um serviço e passou a ser palco de interlocuções — entre clientes e empresa, entre tradição regional e circuito nacional.
A história da família Scarello ajuda a entender a estratégia. De Agli Amici 1887 a projetos fora da região — como a casa bianconera na Istria com duas estrelas Michelin e a experiência no JW Marriott Venice Resort & Spa —, permaneceu, porém, uma relação íntima com o Friuli Venezia Giulia: produtores locais, criatividade, atenção à sustentabilidade. É esse repertório que alimenta o programa “Agli Amici and Guests”, uma série de duelos e duetos gastronômicos articulados em torno das partidas mais importantes do calendário.
O formato já trouxe chefs de perfil nacional ao palco do estádio: Alessandro Negrini e Fabio Pisani (Aimo e Nadia) estiveram para Udinese–Milan; Gennaro Esposito (Torre del Saracino) para a recepção ao Napoli; Roberto “Bobo” Cerea (Da Vittorio) acompanhou a partida com a Inter; e Alessandro Pipero foi convidado para a noite contra a Roma. A proposta — cozinhar enquanto o jogo trama sua narrativa — cria uma espécie de palco duplo: enquanto o espetáculo se desenrola no gramado, outro se constrói nas cozinhas e nas mesas.
Do ponto de vista sociocultural, o gesto tem dupla leitura. Por um lado, ele confirma a profissionalização e a mercantilização das arenas esportivas, que se consolidam como ambientes multifuncionais para negócios e sociabilidade. Por outro, devolve ao estádio uma dimensão cívica: espaço de representação onde se exibem identidades locais, competências e relações transregionais. O desafio é manter a autenticidade — a cozinha que sai do restaurante não pode perder a ligação com sua origem, nem o estádio pode transformar-se em mera vitrine.
Para observadores atentos, a iniciativa de Emanuele Scarello é menos um golpe de marketing do que um gesto estratégico: inscrever a tradição gastronômica friulana no mapa do futebol moderno, oferecendo ao público — e sobretudo aos decisores que frequentam as áreas VIP — uma experiência que cruza prazer, memória e relações de poder.
O calendário de Agli Amici and Guests segue, e a expectativa é que a combinação entre partida e jantar continue a servir como laboratório para novas formas de encontro entre esporte, economia e cultura regional.




















