Por Marco Severini — Espresso Italia
Em mais um lance do tabuleiro geopolítico ártico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nas redes que uma nave hospitalar da Marinha americana estaria a caminho da Groenlândia. A declaração, feita em sua plataforma Truth Social, foi respondida com frieza institucional pela Dinamarca e pelo governo local, que afirmam que a assistência médica já é garantida à população e que a intervenção dos EUA não se faz necessária.
A primeira reação oficial veio da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, que no Instagram lembrou os alicerces do modelo social dinamarquês: “Sou feliz por viver num país em que todos têm acesso livre e igualitário à assistência sanitaria. Não são as seguradoras nem a fortuna pessoal que determinam o tratamento adequado”. A premier destacou ainda que o acesso gratuito à saúde se aplica também à Groenlândia.
O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, acrescentou um comentário de Estado: o governo de Copenhague não foi informado previamente pela administração americana sobre o envio da embarcação. “A população groenlandesa recebe os cuidados necessários na Groenlândia e, quando preciso, tem acesso a especialidades na Dinamarca. Não há, neste momento, necessidade de uma intervenção sanitária específica por parte de terceiros. Se houvesse necessidade, competiria já ao governo local e ao Reino da Dinamarca atuar”, explicou o ministro.
Na publicação de Trump, que continha poucas informações e a imagem de uma embarcação hospitalar, o presidente afirmou que a missão visaria “assistir muitas pessoas doentes que não têm assistência” e citou a colaboração com o governador da Luisiana, Jeff Landry, recentemente nomeado pelo próprio Trump como enviado especial para a Groenlândia.
O episódio sucede a visitas diplomáticas e sinais de reforço de presença: nos últimos dias visitou a região o rei Frederico X da Dinamarca, gesto de forte simbolismo diante das ambições declaradas por Washington sobre a ilha, rica em recursos minerais e estratégica para a segurança no Atlântico Norte. Trump tem, desde o início de seu segundo mandato, reivindicado um papel mais ativo dos EUA sobre a Groenlândia, embora em ocasiões anteriores tenha recuado quando confrontado com a reação internacional e acordos multilaterais.
Paralelamente, as forças dinamarquesas confirmaram a evacuação médica de um membro da tripulação de um submarino americano ao largo da Groenlândia: o militar foi transportado de helicóptero e levado para um hospital em Nuuk após relatar uma emergência médica a bordo. Autoridades não divulgaram a natureza do problema nem detalhes da missão do submarino; imagens divulgadas online parecem mostrar a vela do submarino emergindo na baía de Nuuk.
Este episódio revela a tensão entre gestos unilaterais de projeção de poder e a arquitetura clássica das responsabilidades soberanas. No tabuleiro ártico, movimentos simbólicos — como o anúncio de uma nave hospitalar — devem ser lidos tanto pela sua carga humanitária quanto pelo seu potencial para redesenhar fronteiras invisíveis de influência. A resposta coordenada da Dinamarca e do governo local sublinha a fragilidade dos alicerces diplomáticos quando um grande ator tenta transformar um gesto médico em manobra estratégica.
Contexto: o caso segue sob observação das autoridades regionais e internacionais, e novas informações sobre a real partida da embarcação e seu propósito oficial ainda dependem de confirmações adicionais por parte de Washington.





















