Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia
Uma nova onda de críticas atingiu a Rai após a divulgação de um fuorionda — registro de áudio não intencional — ocorrido na transmissão da prova de bob a quatro durante as Olimpíadas de Milano Cortina. No trecho vazado, ouve-se uma orientação para “evitar o equipaggio israeliano” — uma expressão que provocou imediata reação política e indignação pública.
Paolo Barelli, líder dos deputados do Forza Italia, classificou o episódio como mais uma figuraccia da nossa “televisão de Estado”. Em nota, Barelli disse que, depois do incidente na cerimônia de abertura — já amplamente comentado na imprensa — a nova falha demonstra um modelo de despreparo e descuido que dá a volta ao mundo e mancha o palco erguido com investimento público. “Não se trata de um mero resfriado: a Rai parece afetada por algo mais grave nos seus órgãos vitais”, afirmou, traçando um diagnóstico severo sobre a instituição.
Federico Mollicone, presidente da Comissão de Esportes e Editoria da Câmara, também expressou preocupação. Para ele, o episódio revela o “retropensiero ideológico” de alguns colaboradores da empresa em relação ao conflito no Oriente Médio. Mollicone agradeceu a pronta resposta da direção da emissora — com menção ao ad da Rai, Giampaolo Rossi, e ao diretor interino Marco Lollobrigida — e pediu que sejam tomadas medidas. “É inaceitável, sobretudo no âmbito esportivo”, disse, ofertando solidariedade aos atletas israelenses e às comunidades judaicas na Itália.
Parlamentares da Lega na Comissão de Vigilância da Rai exigiram apurações e providências imediatas. Em comunicado, lembraram que o serviço é mantido com recursos do canone e que o esporte não pode se tornar um terreno de confronto que traia os princípios do espírito olímpico. “Outra prova de que a mudança prometida para um serviço público equilibrado ainda não foi alcançada”, lamentaram.
Maria Elena Boschi, vice-presidente da Comissão de Vigilância e chefe do grupo de Italia Viva, definiu o fuorionda como “incompatível com o serviço público”. “‘Evitiamo l’equipaggio israeliano’ não é uma gafe: é uma frase gravíssima que revela um preconceito e invalida a imparcialidade exigida da emissora”, afirmou.
O episódio abre uma brecha sobre os alicerces da arquitetura do serviço público e sobre como o poder da caneta e do microfone pode afetar a imagem do país e a convivência social. À medida que as instituições prometem apuração, a sociedade espera que as investigações sejam uma ponte clara entre responsabilidades institucionais e reparação de danos — sobretudo quando o palco é uma Olimpíada, momento em que o esporte deveria construir pontes e não erguer muros.
Do ponto de vista prático, a direção da Rai já anunciou averiguações internas; resta saber que medidas disciplinares serão adotadas e se o episódio levará a mudanças estruturais que evitem que a emissora volte a derrapar sobre temas sensíveis. Enquanto isso, a disputa pública segue: políticos pedem punição, comunidades exigem garantias, e a cobertura das Olimpíadas prossegue sob o peso de uma voz — desta vez, gravada — que não deveria ter sido ouvida.






















