Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em meio ao burburinho esportivo de Milano Cortina 2026, uma figura inesperada tem chamado a atenção não apenas pelos papéis institucionais que desempenha, mas pela maneira descontraída com que atravessa símbolos culturais. Snoop Dogg, lenda do rap e convidado especial da atual edição dos Jogos, conversou com a imprensa sobre um tema que, em solo italiano, rapidamente se torna quase litúrgico: a comida.
Nomeado coach honorário da seleção dos Estados Unidos para os Jogos e atuando como enviado especial da NBC, Snoop Dogg tem circulado entre as diferentes sedes — de Milão a Livigno, até Cortina d’Ampezzo — aproximando-se do evento com a naturalidade de quem observa o esporte como cena cultural, não só como competição. Em entrevista à Eurosport, resumiu sua relação com a cozinha local de forma simples e direta: “Qual é o meu prato preferido? A lasanha ou o frango à parmegiana”.
Quando a conversa tocou o assunto que muitas vezes acende debates acalorados nas mesas italianas — a presença do abacaxi na pizza — o artista optou pelo terreno do pragmatismo gustativo: “Não me incomoda, tem um bom sabor e não me dá problema. Ainda que eu prefira com salame picante…”. A resposta, direta e sem afetação, diz muito sobre como figuras públicas podem desarmar polêmicas com escolhas pessoais que valorizam o gosto individual sobre dogmas alimentares.
Ao comentar esses episódios, é importante lembrar que a pizza, na Itália, é mais do que um prato: é um emblema de identidade regional e memória coletiva. A simples menção ao ingrediente tropical reacende discussões históricas sobre tradição, inovação e a circulação global de sabores. A postura de Snoop Dogg — que não antagoniza a tradição, mas também a relativiza — é sintomática de um tempo em que o esporte e a cultura popular convergem para formar narrativas híbridas.
Nessa pequena declaração um sinal das dinâmicas mais amplas que atravessam Milano Cortina 2026: além das pistas e arenas, há um palco de trocas simbólicas onde atletas, celebridades e públicos reescrevem, por meio de gestos aparentemente triviais, o que significa reivindicar tradição em um mundo interconectado. A tolerância gustativa de uma celebridade norte-americana não muda a geografia dos sabores italianos, mas expõe como essa geografia é negociada publicamente.
Em suma, durante os dias dos Jogos, cada intervenção — mesmo sobre uma fatia de pizza — torna-se um lembrete de que o esporte é também um espelho social. E, por ora, Snoop Dogg escolhe o lado do gosto: aprecia a lasanha, elogia o frango à parmegiana e vê no abacaxi na pizza uma variação aceitável. Nada que rompa tradições, mas suficiente para lembrar que a cultura, inclusive a culinária, vive de encontros e contaminações.






















