Em uma noite que misturou resultado esportivo e julgamento público, Bastoni foi alvo de fortes vaias no Via del Mare durante a vitória do Inter por 2-0 sobre o Lecce. O episódio é a continuação de um caso que movimentou as conversas sobre fair play e conduta no futebol italiano: a simulação que envolveu Kalulu no duelo anterior contra a Juventus.
Na partida com a Juve, Bastoni caiu após um contato mínimo com Kalulu, já amarelado; o árbitro La Penna entendeu tratar-se de infração e aplicou o segundo cartão amarelo a Kalulu, que foi expulso. A imagem daquele momento — a queda, a expulsão e a celebração subsequente do defensor nerazzurro — alimentou críticas imediatas. Nos dias que se seguiram, Bastoni enfrentou ataques nas redes e foi forçado a emitir um pedido público de desculpas antes do confronto com o Bodø/Glimt pelas eliminatórias da Liga dos Campeões.
No entanto, o gesto de retratação não pareceu suficiente para a torcida do Lecce. Desde os primeiros minutos em Salento, cada toque de Bastoni foi acompanhado por vaias. O ruído aumentou quando o defensor bateu um lateral junto à tribuna e em um duelo corpo a corpo, sinais claros de que para aquela plateia o episódio com Kalulu não foi esquecido nem perdoado.
Além do relato dos acontecimentos, vale situar o fenômeno em um quadro mais amplo. No futebol italiano, o gesto do torcedor — seja aplauso, seja vaias — funciona como sancionamento social e como expressão de uma memória coletiva. O episódio de Bastoni não é apenas um lance isolado; é uma fissura na credibilidade do jogador frente ao público, um lembrete de que atitudes que buscam manipular decisões de arbitragem têm custo reputacional que se prolonga além do apito final.
Do ponto de vista disciplinar, a ação teve consequência imediata para Kalulu, mas o impacto para Bastoni é sobretudo simbólico. Jogadores centrais carregam, além de responsabilidades táticas, papel de autoridade moral dentro do campo: quando essa autoridade é questionada, o ambiente hostil pode interferir na performance individual e coletiva. Para um clube como o Inter, habituado à exposição midiática, gerenciar episódios assim exige mais do que notas oficiais; passa pela reconstrução de confiança entre jogador, adversários e público.
Ao observar a cena no Via del Mare, é possível ler também uma faceta regional da paixão futebolística italiana: estádios no Sul costumam reservar recepções intensas e prolongadas a figuras consideradas provocadoras. As vaias a Bastoni representam, portanto, uma síntese entre indignação moral e ritual tributar de identidade local.
Em termos práticos, resta ao defensor do Inter transformar a reação adversa em argumento: responder dentro de campo com profissionalismo, consistência e comportamento que gradualmente desconstruam a narrativa desfavorável. Se o futebol é espetáculo, também é processo de memória — e a memória, quando negativa, cobra seu preço em forma de fischi.






















