Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A apresentação da nova camisa da Juventus terminou por se transformar, em poucas horas, num espelho onde se refletiram críticas, memórias e ressentimentos. Em um contexto já tenso pela derrota caseira e incisiva contra o Como, o novo modelo – a 4ª camisa da temporada 25/26 – virou alvo de um furioso corre-corre de sátiras nas redes sociais. As listras horizontais em preto e branco foram comparadas tanto ao equipamento do rúgbi quanto, com menos polidez, à farda de galeotti.
O design, assinado pelo coletivo Studio Sgura e inspirado na pré-campanha 1996-97 que nunca chegou a figurar em partidas oficiais, foi descrito pela própria clube como um exercício de “repensar as listras, preservando plenamente o significado” e como uma fusão entre passado e presente, “entre performance e lifestyle”. Apesar da intenção declarada, a recepção pública foi amplamente irônica.
Nas timelines, torcedores adversários multiplicaram montagens: jogadores da Juventus com algemas, imagens de presídios estilizados com as cores bianconere, e trocadilhos que transformaram a peça de vestuário em símbolo de uma narrativa crítica à instituição. Entre os próprios sócios e simpatizantes, o ressentimento ficou claro — a derrota para o Como e a sequência de tropeços recentes, incluindo eliminação europeia, alimentam um olhar duro sobre tudo o que envolve o clube, da direção ao guarda-roupa.
Nem todas as reações, contudo, foram negativas. Houve quem elogiasse a simplicidade e o recorte retrô: um comentário em espanhol destacou a estética minimalista e a ligação com referências históricas estéticas do clube, lembrando que o futebol em campo, para aquele espectador, não acompanhou a elegância do uniforme.
Para além do humor rápido e das piadas fáceis, o episódio revela algo mais duradouro: a camisa — enquanto objeto simbólico — funciona como testamento de identidade. Quando a narrativa esportiva entra em crise, quando resultados e expectativas se chocam, itens como a 4ª camisa tornam-se vetores de julgamento sobre o projeto do clube. Não é mera vaidade consumista; é um terreno onde memória, moda e política esportiva se cruzam.
O caso da Juventus evidencia uma dinâmica recorrente no futebol moderno: a roupa como linguagem, capaz de reforçar tradições ou, ao contrário, sinalizar desalinhamentos. Ao buscar referência em 1996-97, o design queria dialogar com uma época — mas o contexto atual, marcado por decepções recentes, traduziu a peça em metáfora conveniente para o sarcasmo.
Como analista, é importante separar ironia e substância. O riso nas redes aponta fragilidade narrativa. Resta à Juventus — dentro e fora de campo — restaurar coerência entre performance, identidade e imagem. Só então uma camisa, por mais bem concebida que seja, poderá voltar a ser apenas uma camisa, e não pretexto para um espelho de críticas.






















