Não será Donald Trump a ocupar os reflexos mediáticos na final de hóquei de Milano Cortina, mas os olhos da opinião pública norte-americana voltam-se para a arena de Santa Giulia por outro motivo: a presença do chefe do FBI, Kash Patel, nas arquibancadas do confronto decisivo entre Estados Unidos e Canadá, marcado para as 14h10 de domingo, 22 de fevereiro de 2026.
Patel, de 45 anos, filho de imigrantes indianos e criado no Queens, Nova York, acompanhou a vitória americana na semifinal contra a Eslováquia e permanecerá em Milão para assistir à final. A sua presença, aparentemente simples manifestação de afinidade com o desporto — conhecido como um apaixonado por hóquei — assume, contudo, camadas simbólicas e políticas que tornam a visita digna de análise.
Nos Estados Unidos, Kash Patel é figura controversa por seu passado como assessor republicano e por ter liderado investigações que questionaram procedimentos e acusações dirigidas ao próprio FBI, incluindo episódios relacionados ao chamado ‘Russiagate’. Essa trajetória transforma qualquer deslocamento internacional seu em potencial foco de debate sobre isenção institucional, imagem pública e uso de recursos estatais.
A polêmica ganhou força após divulgação de que Patel viajou com um avião governamental — uma prática que já havia sido alvo de críticas quando o chefe do FBI havia utilizado aeronave oficial para seguir eventos de artes marciais para ver a namorada. Fontes oficiais do seu gabinete, porém, sustentam que a missão a Itália foi planejada desde julho do ano anterior e tem caráter de trabalho: além de acompanhar as partidas, Patel teria encontros previstos com chefes de polícia locais, dirigentes de segurança e um briefing com o embaixador americano, Tilman Fertitta, sobre as medidas de segurança em torno dos Jogos Olímpicos de Inverno.
Como analista interessado nas intersecções entre esporte, poder e memória coletiva, é preciso observar dois eixos. Primeiro, o evento de Milano Cortina provê um palco internacional onde decisões e símbolos de segurança são exibidos ao público global — daí a justificativa institucional para a presença de um alto responsável pela segurança nacional. Segundo, a repetição de deslocamentos oficiais para fins que transitam entre o institucional e o pessoal alimenta uma narrativa de olhos desconfiados sobre privilégio e instrumentalização de bens públicos, especialmente em contexto polarizado como o americano.
Em termos práticos, a presença de Patel não altera o significado esportivo da final — um clássico norte-americano que, por si só, carrega rivalidade e história — mas acrescenta uma camada de leitura: a arena torna-se também fórum diplomático e de vigilância simbólica. Para os observadores europeus e italianos, é uma recordação de como grandes eventos desportivos funcionam como pontos de confluência entre espetáculo e segurança pública.
As reações nos Estados Unidos devem permanecer divididas: parte da opinião pública aceitará a justificativa institucional; outra parte verá no episódio mais um exemplo de uso discutível de privilégios oficiais. No curto prazo, a narrativa ganhará contornos claros quando os detalhes dos encontros e a agenda oficial forem tornados públicos, consolidando ou atenuando a controvérsia.
Por ora, resta assistir ao jogo e observar como o esporte, mais uma vez, oferece ao debate público uma imagem ampliada das relações entre Estado, representação e espetáculo.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















