Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que redesenha, de maneira abrupta, as linhas de influência do comércio internacional, o presidente Donald Trump anunciou o aumento imediato da tarifa global dos Estados Unidos de 10% para 15%. A decisão foi divulgada em post na plataforma Truth e acontece na esteira da sentença da Corte Suprema norte-americana, proferida na véspera.
Segundo o comunicado presidencial, resultado de uma «análise aprofundada, detalhada e completa» da decisão da Corte — que Trump qualificou como mal redigida e «extraordinariamente antiamericana» —, a administração elevou o nível da tarifa global ao patamar que, na sua interpretação, é máximo e juridicamente admissível. A medida entra em vigor de imediato, substituindo o decreto anterior que havia instituído, a partir de 24 de fevereiro e por 150 dias, uma tarifa de 10% sobre importações globais, com exceções limitadas a determinados produtos farmacêuticos e a mercadorias cobertas pelo acordo entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA).
No plano jurídico, a Corte Suprema decidiu, por maioria de 6 a 3, que o presidente havia ultrapassado os limites impostos pela lei federal ao impor unilateralmente tarifas aduaneiras de amplo alcance. Nesse julgamento, o juiz Brett Kavanaugh alinhou-se à posição favorável ao presidente, enquanto os juízes Amy Coney Barrett e Neil Gorsuch — ambos indicados por Trump — integraram a maioria com o presidente da Corte, John Roberts, e três magistrados de orientação progressista. A decisão revela a tectônica complexa das nomeações judiciais, onde convicções institucionais podem desencontrar-se das expectativas políticas.
Em sua mensagem, Trump também enalteceu o juiz Brett Kavanaugh como seu “novo herói” na Corte, citando ainda os nomes de Clarence Thomas e Samuel Alito como aliados na empreitada de tornar “a América de novo grande”. A retórica presidencial, severa e direta, incluiu críticas à maioria dos magistrados, retratada como uma afronta ao interesse nacional.
Do lado europeu, Paris exigiu uma resposta coordenada: o ministro delegado francês para o Comércio Exterior, Nicolas Forissier, instou por um posicionamento unitário da União Europeia face ao aumento das tarifas anunciado por Trump. Em mensagens oficiais, autoridades francesas e parceiros comunitários avaliam as consequências econômicas e diplomáticas da medida, que tem potencial de desencadear retaliações e tensionar ainda mais as cadeias de fornecimento transatlânticas.
Como analista de geopolítica, penso que estamos diante de um movimento estratégico no grande tabuleiro: a elevação para 15% não é apenas um ajuste econômico, mas um lance calculado que pretende reconfigurar alicerces de poder, testar as defesas institucionais e forçar a rearticulação de blocos comerciais. A resposta europeia e as decisões judiciais internas constituem, juntas, as linhas sísmicas desta tectônica de poder — o próximo capítulo dependerá das respostas diplomáticas e da capacidade de os parceiros transatlânticos tramarem uma defesa comum.
Este é, em essência, um movimento decisivo no tabuleiro da economia global; exigirá, das capitais e das cortes, uma arquitetura de respostas tão sólida quanto as implicações que se anunciam.






















