Por Marco Severini — Em um movimento que altera, mais uma vez, as frágeis linhas do poder ao longo da fronteira, o Paquistão conduziu ataques aéreos no leste do Afeganistão que, segundo autoridades locais, deixaram ao menos 17 mortos — entre eles 11 crianças — e cinco feridos. O balanço inicial foi confirmado por Quraishi Badloon, porta-voz do departamento de Informação e Cultura da província de Nangarhar, referindo-se especificamente a ações no distrito de Behsood.
Do lado de Islamabad, o governo paquistanês afirmou ter realizado operações contra sete sítios na região de fronteira, descritas como ataques “alvo” baseados em informações de inteligência. A justificativa oficial aponta a resposta a uma série de atentados suicidas reivindicados por grupos militantes que, segundo o anúncio, teriam apoio a partir do território afegão. O comunicado do Ministério da Informação e Radiodifusão do Paquistão cita três ataques ocorridos desde o início do Ramadã na semana passada como mote para as operações militares.
É essencial ressaltar a dupla dimensão deste episódio: a tragédia humanitária materializada nas mortes de civis — e, de modo particularmente sensível, de crianças — e a dimensão estratégica, na qual cada movimento é calculado num tabuleiro regional onde a credibilidade, a dissuasão e a capacidade de projetar poder contam tanto quanto a preservação das populações. Ao atingir campos e supostas instalações de militantes, Islamabad busca reduzir ameaças internas; entretanto, o custo civil imediato produz efeitos políticos e pressiona por reações diplomáticas de Cabul e atores regionais.
O relatório talibã e a declaração paquistanesa coincidem em um ponto: o risco de escalada. A resposta de Islamabad, feita em tom de segurança nacional, poderá ser interpretada como um “movimento decisivo no tabuleiro” para reafirmar fronteiras de facto, mas também abre portas a um ciclo de retaliação e a uma erosão dos alicerces da diplomacia entre as partes.
Do ponto de vista jurídico e humanitário, ataques que resultam em vítimas civis demandam investigações transparentes e garantias de responsabilização. O episódio em Nangarhar reverbera em capitais regionais e entre interlocutores internacionais preocupados com o potencial de desestabilização adicional de uma área já marcada por itinerários de militância transfronteiriça e por vetores de influência externa.
Como analista, observo que o uso de ataques cirúrgicos com justificativa de inteligência é um instrumento clássico de Realpolitik, porém ambientes complexos e densos em populações civis convertem esses instrumentos em riscos de perda de legitimidade. Em termos práticos, a dinâmica atual exige três frentes de ação: salvaguarda imediata das populações afetadas, canais diplomáticos de emergência entre Islamabad e Cabul para evitar novas incursões, e mecanismos multilaterais de monitoramento que possam atenuar a tensão e objetivar provas sobre a presença ou não de santuários militantes.
Enquanto as autoridades contabilizam danos e os familiares choram perdas irreparáveis, a região observa um redesenho de fronteiras invisíveis — movimentos estratégicos que, se não administrados com cuidado, podem transmutar em conflitos mais abrangentes. A comunidade internacional, por seu turno, tem no dever prático de exigir transparência e atuar como moderadora, evitando que a tectônica de poder local descambe para uma crise humanitária e política de maior escala.
O caso em Behsood é, portanto, mais que um incidente isolado: é um indicador de como vontades estatais, ameaças não-estatais e custos civis se entrelaçam, requerendo resposta que combine firmeza de segurança e responsabilidade diplomática.






















