Apuração em campo e cruzamento de fontes apontam que o assistente-chefe Carmelo Cinturrino teria exigido, diariamente, quantias em dinheiro e porções de droga de Abderrahim Mansouri, o marroquino de 28 anos morto por um tiro na cabeça em 26 de janeiro no chamado “boschetto” de Rogoredo durante uma operação anti-tráfico. As declarações constam no inquérito em andamento e foram prestadas por conhecidos e usuários que circulavam naquela área.
Segundo alguns depoimentos já colhidos pela investigação, as exigências teriam chegado, em determinados dias, a cerca de 200 euros e cinco gramas de cocaína por dia. Testemunhas relatam que o jovem confidenciava a pessoas próximas sentir-se ameaçado após recusar as solicitações do policial, hoje indagado por homicídio voluntário.
Um dos relatos fornecidos por dependentes químicos sintetiza a conduta atribuída ao agente: “ele nos metia em fila”. No bairro, o policial não era chamado pelo nome de batismo — Carmelo — mas por um apelido: “Luca“. Há também depoimentos que descrevem situações de extorsão extrema: um informante afirmou ter sido cobrado até mesmo nove euros em moeda, por não dispor de valor maior naquele momento.
Os investigadores destacam que a credibilidade dessas declarações será avaliada à luz da procedência dos relatos, mas há convergência entre várias fontes que mencionam supostas exigências de dinheiro e droga praticadas pelo agente.
Em paralelo, surgem contradições na versão inicial apresentada por Cinturrino aos colegas: ele teria dito a superiores que acionou os socorros imediatamente após o disparo que vitimou Mansouri, mas a análise das chamadas e depoimentos aponta que o chamado ao serviço de emergência partiu mais de vinte minutos depois do ocorrido.
Quatro agentes foram ouvidos pela Promotoria — que é dirigida pelo procurador Marcello Viola — e agora são investigados por favorecimento e omissão de socorro. Eles negam participação direta no homicídio; entretanto, todos atribuem ao policial de 42 anos a gestão das ações subsequentes ao tiro e relatam que ele mentiu sobre a chamada aos serviços de emergência. As posições entre esses quatro variam: um estava próximo a Cinturrino no momento do disparo; os demais chegaram ao local posteriormente.
Com base em imagens das câmeras da área, a Promotoria traçou uma linha de investigação que inclui a ida de um colega ao comissariado Mecenate e seu retorno ao boschetto portando uma bolsa. A hipótese levantada pelos investigadores é de que uma réplica de arma de fogo — uma pistola a salvas — teria sido colocada na cena posteriormente, o que colocaria em dúvida a versão de legítima defesa apresentada pelo agente de que Mansouri teria empunhado um objeto.
As reivindicações coincidem com as apurações da defesa da família da vítima, representada pelos advogados Debora Piazza e Marco Romagnoli. A investigação também apurou que, instantes antes do episódio, Mansouri estava em ligação com outro suposto traficante que o alertou: “attento c’è la polizia scappa”. A segunda chamada não obteve resposta: o jovem já estava no chão, agonizando.
Da análise cronológica dos eventos, os investigadores calcularam um intervalo de 23 minutos entre o disparo e o efetivo alerta ao 118. Esse atraso é elemento central nas apurações sobre a conduta dos agentes presentes e motivou as novas impressões iniciais sobre omissão de socorro.
O caso segue em fase de inquérito: os fatos brutos foram registrados, as imagens de vídeo e os registros telefônicos estão sendo cruzados e as declarações ainda serão confrontadas com perícias técnicas. A investigação busca esclarecer se houve prática sistemática de extorsão por parte do policial e determinar as responsabilidades penais dos envolvidos.






















