Marco Severini — Fontes de Buckingham Palace informaram ao Guardian que o rei Carlo III não se oporia a uma legislação específica destinada a remover seu irmão, o ex-príncipe Andrea, da linha de sucessão. A declaração ocorre no contexto de uma investigação policial em curso sobre o envolvimento de Andrea no escândalo ligado a Epstein, que culminou com sua detenção nesta semana.
Um levantamento publicado ontem pelo instituto YouGov revela a dimensão política e simbólica do episódio: 82% dos britânicos consideram que Andrea Mountbatten-Windsor deve ser totalmente excluído da linha sucessória; apenas 6% opinam que ele deveria permanecer. Esses números desenham um quadro em que a opinião pública pressiona por medidas formais, não apenas por sanções sociais ou honoríficas.
Oficialmente, Andrea já foi despojado de títulos e funções públicas pela Casa Real em razão de suas ligações com o financista acusado de abuso sexual, permanecendo, contudo, na oitava posição da sucessão ao trono, atrás do príncipe William, dos três filhos deste, e do príncipe Harry e seus dois filhos. Apesar da perda dos títulos, ele ainda figura como Conselheiro de Estado — um dos membros autorizados a representar o monarca em caso de doença ou ausência —, uma condição que, na prática, dificilmente seria acionada tratamento por alguém destituído de honras reais.
Do ponto de vista jurídico-constitucional, a exclusão de Andrea da linha de sucessão não seria trivial: exigiria a aprovação de uma nova lei pelo Parlamento britânico, o assentimento do soberano e o consentimento unânime dos 14 reinos do Commonwealth onde o rei é chefe de Estado — entre eles Austrália e Canadá. Essa arquitetura normativa desenha, em termos geopolíticos, uma série de barreiras institucionais que preservam a estabilidade do sistema monárquico, mesmo diante de crises reputacionais severas.
Fontes governamentais de Londres, incluindo o ministro da Defesa Luke Pollard, afirmaram à imprensa que já há diálogos em andamento com a Casa Real sobre possibilidades legislativas para impedir qualquer cenário em que Andrea pudesse ascender ao trono. No entanto, tanto o governo trabalhista de Keir Starmer quanto o próprio Palácio deixam claro que não haverá iniciativas formais enquanto as investigações policiais estiverem em andamento.
As operações da polícia continuam focalizadas na Royal Lodge, a antiga residência do ex-príncipe, uma mansão adjacente ao castelo de Windsor com mais de 30 cômodos. Buscas e eventuais apreensões de documentos visam reunir elementos além dos já tornados públicos nos chamados “Epstein files” nos Estados Unidos. Fontes jornalísticas relatam que a investigação apura também o circuito de jovens mulheres — algumas menores, em determinados momentos — que teriam sido disponibilizadas a figuras poderosas, mediante logística que incluía voos privados do infame “Lolita Express“. Segundo documentos, entre os anos 1990 e 2018 mais de 80 jovens teriam sido levadas ao Reino Unido por esses meios.
Relatos presentes nos arquivos apontam que algumas dessas mulheres teriam sido recebidas por diversas personalidades, inclusive em instalações oficiais, em um período em que Andrea mantinha um escritório pessoal em Buckingham Palace durante o reinado de sua mãe, a rainha Elizabeth II. Um dos ramos investigativos foca precisamente nessa sequência de eventos e possíveis evidências documentais que possam estabelecer responsabilidades penais.
Em termos de equilíbrio internacional, esta crise abre uma série de desafios institucionais: de um lado, a necessidade de preservar os alicerces da monarquia como instituição estabilizadora do sistema político; de outro, a pressão pública e moral por responsabilização. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro institucional britânico, em que cada passo — legislativo ou investigativo — tem repercussões possíveis na arquitetura do poder e na tectônica das relações do Reino Unido com os demais reinos do Commonwealth.
Enquanto as buscas prosseguem e o trabalho investigativo se aprofunda, o desfecho dependerá da confluência entre provas coletadas, cálculos jurídicos e decisões políticas que, como sempre em monarquias constitucionais, são jogadas de xadrez entre a lei, a legitimidade pública e o interesse estatal.





















