Por Marco Severini — Em leitura atenta dos instrumentos da diplomacia doméstica, verificamos que Trump não consta na lista de deslocamentos oficiais para os Jogos Milano‑Cortina. Conforme o calendário entregue ao pool de jornalistas que cobre a Casa Branca, o Presidente tem previstos apenas compromissos internos — reuniões na residência oficial e a tradicional jantar com governadores, acompanhado pela primeira-dama.
O anúncio, ou melhor, a ausência de um anúncio, funciona como peça de política externa por si só. Num tabuleiro onde cada movimento gera ecos além das fronteiras, a decisão de permanecer em Washington durante a final de hóquei entre EUA e Canadá é equivalente a recusar um torneio simbólico de visibilidade internacional. Não se trata apenas de esportes: trata-se de projeção de poder brando em um palco europeu que, por sua própria natureza, reúne aliados e rivais sob as luzes da mídia global.
Há razões práticas óbvias: a segurança de um deslocamento presidencial em tempos de agendas domésticas carregadas, o custo político de ausentar-se em momentos sensíveis do ciclo político interno e a logística complexa de uma viagem transatlântica. Porém, como analista de estratégia internacional, insisto em ler o fato também através da lente da tectônica de poder: um presidente que opta por priorizar encontros na capital em detrimento de uma presença em solo aliado comunica, ainda que discretamente, uma hierarquia de prioridades. Esse desenho de prioridades é um movimento no tabuleiro — calibrado para preservar alicerces domésticos, sem provocar rupturas abertas no cenário externo.
O jogo de imagem é duplo. Para a plateia americana, a permanência em Washington pode ser vendida como sinal de foco no governo e responsabilidade institucional. Para os observadores europeus e atlânticos, a ausência é um lembrete de que a diplomacia vem, muitas vezes, em camadas: pasmem, a soft power do sorriso na tribuna de uma partida de hóquei tem utilidade real, mas não é insubstituível se os canais oficiais de diálogo permanecerem operantes.
Importa também reparar no contraponto com eventos presidenciais anteriores: chefes de Estado costumam pesar custo político e ganho simbólico antes de embarcar. O fato de a agenda presidencial — o scadenzario — registrar somente compromissos internos sinaliza que, neste momento, o valor estratégico de uma viagem a Milano‑Cortina foi avaliado como inferior aos benefícios de permanecer no centro do poder.
Do ponto de vista geopolítico, não devemos exagerar a leitura: a não‑viagem não implica ruptura, nem é necessariamente um gesto provocativo. É, sim, um ajuste fino no posicionamento internacional — um lance cauteloso, quase posicional, que evita expor o Executivo a riscos desnecessários enquanto mantém, nos bastidores, canais diplomáticos abertos.
Em suma, a ausência de Trump na final entre EUA e Canadá encontra explicação imediata na própria agenda divulgada pela Casa Branca. A interpretação estratégica exige, contudo, uma leitura mais ampla: é o movimento calculado de um jogador que prefere fortalecer suas peças no centro do tabuleiro antes de projetar influência nas bordas. A arquitetura das relações transatlânticas segue firme, mas com contornos que seguem sendo redesenhados, peça por peça.





















