Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura peças fundamentais do tabuleiro constitucional britânico, fontes junto ao Buckingham Palace indicam que o rei Carlo III não se oporia à eventual remoção do príncipe Andrea da linha de sucessão. A informação foi divulgada ao Guardian, revelando um alinhamento pragmático entre a Coroa e o governo diante do abalo reputacional provocado pelo escândalo Epstein.
O príncipe Andrea, detido nesta semana em investigação relacionada aos laços com o financista acusado de crimes sexuais, já foi destituído de todos os seus títulos e funções oficiais. Apesar disso, permanece na oitava posição na ordem de sucessão — atrás do príncipe William e seus três filhos, e do príncipe Harry e seus dois filhos. Tecnicalidades constitucionais mantêm-no, por ora, como potencial herdeiro, o que transforma qualquer decisão sobre sua exclusão em um problema de arquitetura institucional e de diplomacia multilateral.
Além da perda dos títulos, Andrea continua formalmente como Conselheiro de Estado, cargo que permite a um membro da família real agir em nome do monarca em casos de doença ou ausência. Na prática, porém, é improvável que alguém privado de títulos e funções oficiais seja chamado a exercer tais poderes.
A exclusão de um membro da sucessão exige um processo legislativo complexo: aprovação de nova lei pelo Parlamento, o assentimento do rei e o consentimento de todos os 14 países do Commonwealth — entre eles, Austrália e Canadá — onde o monarca atua como chefe de Estado. Trata-se de um mosaico legal que exige consenso entre múltiplos centros de decisão, não simplesmente uma mudança administrativa interna.
Fontes governamentais em Londres, incluindo o ministro da Defesa, Luke Pollard, confirmaram que já existem contactos com o Buckingham Palace para avaliar a viabilidade de uma intervenção legislativa. As autoridades, porém, sublinham que nenhuma iniciativa concreta será tomada antes da conclusão das investigações em curso, numa demonstração de cautela institucional e de respeito ao devido processo.
No âmbito judicial, a Polícia informou que as buscas na residência conhecida como Royal Lodge, antiga moradia do príncipe Andrea, prosseguirão ao longo do fim de semana. Esse movimento investigativo, além de recolher elementos materiais, altera o cenário político — pois transforma incógnitas em fatos verificáveis, os quais alimentarão decisões legais e políticas subsequentes.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um momento em que hábitos monárquicos e regras constitucionais precisam dialogar com a pressão da opinião pública internacional. A situação assemelha-se a um final de partida de xadrez em que poucas peças restantes determinam o desfecho: cada jogada legal exigirá cálculo preciso, coordenação internacional e sensibilidade aos alicerces frágeis da diplomacia do Commonwealth.
Enquanto as investigações seguem, a Casa Real e o governo britânico calibram uma resposta que preserve a estabilidade institucional e minimize riscos à imagem da Coroa. Em termos práticos, qualquer alteração na sucessão será mais que um ajuste de protocolo: representará um redesenho de fronteiras invisíveis do poder, exigindo um consenso raro entre capitais e parlamentos que mantêm, ainda hoje, vínculos formais com a Coroa.






















