Por Marco Severini – Em um movimento que mistura diplomacia esportiva e tensões políticas, Kash Patel, o homem nomeado por Donald Trump para liderar o FBI, acompanha as partidas decisivas das Olimpíadas de Milano-Cortina. O diretor, 45 anos — que completará 46 em 25 de fevereiro —, esteve presente na semifinal vitoriosa dos Estados Unidos sobre a Eslováquia e permanecerá na Itália para assistir à final entre EUA e Canadá, marcada para amanhã às 14h10, um duelo que ganha contornos extras à sombra das recentes disputas sobre tarifas comerciais.
Nascido em Nova York de pais indianos e criado na tradição hindu, Patel não é apenas um aficionado por hóquei; é também um nó estratégico no tabuleiro político de Washington. Sua trajetória desde o auge do movimento "MAGA" até a liderança da agência federal já produziu uma série de controvérsias que testam os alicerces da estabilidade institucional.
Insurgindo-se desde o primeiro ano de mandato, Patel conduziu uma reforma interna que incluiu a dispensa de dezenas de agentes tidos como contrários à atual administração — alguns, segundo relatos, submetidos a verificações de lealdade, a chamada "máquina da verdade". A purga consolidou seu poder, mas também gerou inimigos influentes, que buscaram na mídia espaço para relatos críticos sobre condutas que, em Washington, se medem tanto em ética quanto em percepção pública.
O Wall Street Journal e outros veículos traçaram um perfil que reúne episódios desconfortáveis: uso de voos estatais para deslocamentos pessoais — entre eles viagens frequentes a Las Vegas e a Nashville, onde reside sua companheira, a cantora country Alexis Wilkins — e deslocamentos que incluiriam até o emprego de equipes da SWAT para proteção pessoal. Segundo as investigações jornalísticas, alguns desses voos teriam ocorrido em períodos de shutdown, quando funcionários federais chegaram a ficar sem salário, e sem os reembolsos que a prática exige quando o uso é privado.
Não é irrelevante, do ponto de vista da geopolítica doméstica, que uma figura que já acusara seu predecessor Chris Wray de comportamentos semelhantes hoje se veja no centro de denúncias parecidas. A repetição de padrões alimenta narrativas opostas e redesenha, discretamente, linhas de fratura dentro da administração: aliados que aplaudem a disciplina e a lealdade, críticos que apontam erosões de normas e riscos reputacionais.
Em termos de estratégia internacional, a presença de Patel numa final tão carregada simboliza um gesto duplo: por um lado, a normalização da participação de altos funcionários em eventos globais; por outro, a exposição pública de um dirigente cuja legitimidade foi construída tanto por afinidade política quanto por confronto com partes relevantes do aparelho federal — um movimento decisivo no tabuleiro cujo alcance ainda será avaliado pelos bastidores do poder.
Para além das manchetes, há uma lição arquitetônica: a estabilidade das instituições exige fundações claras e procedimentos que resistam às marés partidárias. Enquanto Patel assiste ao jogo, a tectônica de poder em Washington continua a recalibrar-se, e cada relatório sobre seus atos contribui para redesenhar fronteiras invisíveis entre autoridade e interesse pessoal.
O episódio reafirma que, na diplomacia e na governança, símbolos importam tanto quanto decisões. A presença de um diretor do FBI na arena esportiva não é só um gesto de paixão pessoal; é também um lance no xadrez político, com repercussões internas e externas que merecem acompanhamento atento.






















