Quentin Deranque foi lembrado por milhares neste sábado em Lyon, em uma marcha que reuniu nacionalistas e simpatizantes vindos de toda a França e de outros países europeus. A manifestação, realizada sob rígido aparato de segurança, ocorreu sem confrontos significativos, embora uma pessoa tenha sido presa por porte de arma branca e um martelo.
Segundo a prefeitura do Ródano, aproximadamente 3.200 pessoas participaram do cortejo; os organizadores contabilizaram 3.500 presentes, alguns com a metade inferior do rosto coberta. A marcha começou às 16h, na Place Jean-Jaurès, no 7º arrondissement, e percorreu ruas até a rue Victor Lagrange, local onde ocorreu o espancamento que resultou na morte do jovem ativista nacionalista de 23 anos. No fim do trajeto os manifestantes depositaram uma coroa de flores e entoaram palavras de ordem como “antifa assassinos“, “esta é nossa casa” e “a extrema esquerda mata”.
O cortejo transcorreu em clima tenso, marcado por um dispositivo policial robusto desenhado para impedir choques entre facções. Uma pessoa foi detida durante a marcha; as autoridades não divulgaram identidade nem filiação política do detido, apenas informaram que foram apreendidos um canivete e um martelo.
Horas antes da marcha, houve uma cerimônia religiosa em uma igreja tradicionalista lionesa, frequentada pelo jovem, onde as celebrações são realizadas em latim. A liturgia, discreta, funcionou como um ponto de coesão para os que buscavam um rito de passagem público e cerimonial.
Em Paris, o presidente Emmanuel Macron conclamou à serenidade: “Este é um momento de reflexão e respeito pelo nosso jovem compatriota morto. Não há lugar para milícias, de onde quer que venham”. A prefecta do Ródano, Fabienne Buccio, advertiu que “não se tolerará o mínimo incidente dentro do cortejo, nem em suas margens”.
O episódio que desencadeou a mobilização teve início em 12 de fevereiro, na margem de uma conferência da eurodeputada de esquerda radical Rima Hassana, durante a qual Quentin Deranque tentava garantir a segurança de membros do coletivo nacionalista feminino Nemesis, que protestava no exterior da sala. O jovem foi agredido e faleceu dois dias depois em consequência das lesões. Sete pessoas foram formalmente acusadas: seis por homicídio voluntário e uma por “complicidade”. Todos os suspeitos têm ligações com a organização Jeune Garde Antifasciste, extinta no último junho por repetidos episódios de violência.
Entre os suspeitos, três são colaboradores de Raphael Arnault, deputado do partido La France Insoumise e fundador da própria Jeune Garde. O grupo parlamentar do partido rejeitou as pressões de direita que solicitavam a suspensão ou expulsão de Arnault.
Ao término da manifestação, a prefeitura do Ródano informou que encaminhará à magistratura denúncias relacionadas a saudações romanas e insultos de teor racista e homofóbico ocorridos durante o evento. O caso permanece sob investigação judicial, enquanto o debate público francês ganha novos contornos: a violência entre militantes radicais redesenha, de forma abrupta, as linhas de influência e as fraturas na paisagem política.
Do ponto de vista estratégico, tratou-se de um movimento decisivo no tabuleiro público: não apenas uma homenagem fúnebre, mas um gesto de afirmação identitária com potencial de provocar respostas e realinhar alianças. A estabilidade do espaço cívico exige tanto as instituições fortes quanto a responsabilidade dos atores políticos — alicerces frágeis que, quando estremecidos, reconfiguram a tectônica de poder em jogo.






















