Por Marco Severini – Em um movimento que reconfigura um trecho discreto, porém sensível, do tabuleiro informativo entre Pequim e Washington, a Radio Free Asia (RFA) retomou as transmissões destinadas ao território chinês. Após meses de silêncio forçado pela suspensão de recursos governamentais promovida pela administração norte-americana no início de 2025, serviços essenciais em mandarim, tibetano e uigur voltaram ao ar nas últimas semanas.
O restabelecimento foi confirmado em 18 de fevereiro pela presidente e CEO Bay Fang, em anúncio publicado no LinkedIn. Fang explicou que, diante do bloqueio dos fundos oficiais decretado pela Casa Branca no ano anterior, a emissora conseguiu reativar emissões graças a contratos privados com provedores de transmissão. Segundo a diretora, “este trabalho fundamental… já está causando impacto”.
Na prática, o retorno das ondas representa a reintrodução de uma fonte que, ao longo dos anos, se tornou um instrumento de denúncia sobre abusos relatados em regiões sensíveis da China, especialmente no Xinjiang. O serviço uigur, por exemplo, veiculou recentemente uma reportagem sobre filhos de detentos nas campanhas de repressão que, segundo investigações, estariam forçados a realizar trabalho manual em idades precoces em vez de frequentar a escola — um tema que continua a tensionar narrativas entre observadores internacionais e as autoridades chinesas.
Relatórios anteriores e coberturas jornalísticas atribuídas à RFA foram importantes para evidenciar a existência de campos de internamento e outros padrões de tratamento que Pequim repetidamente negou. Em paralelo, Fang informou que os serviços em coreano e birmanês já haviam sido restabelecidos em dezembro, em uma primeira etapa do esforço de reconstrução da programação.
O balanço humano do corte de outubro foi severo: a emissora chegou a dispensar ou colocar em licença mais de 90% de sua equipe de notícias. A decisão de Washington, que congelou quase todos os financiamentos estatais a certos meios independentes no contexto das alterações de política externa de 2025, foi celebrada pela mídia estatal chinesa como uma medida legítima. Já o porta-voz da embaixada chinesa em Washington, Liu Pengyu, afirmou que se tratava de “assunto interno” dos EUA, acusando a RFA de manter um viés anti-chinês e de disseminar informações falsas.
Do ponto de vista geopolítico, o retorno das transmissões não é apenas um episódio de mídia: é um movimento numa partida de xadrez onde as comunicações públicas servem tanto como instrumento de pressão quanto como meio de preservação de narrativas alternativas. A restauração das emissões demonstra como os alicerces da diplomacia informacional permanecem frágeis — e como atores não estatais e contratos privados podem redesenhar fronteiras invisíveis de influência informativa.
Enquanto isso, a reação oficial de Pequim concentra-se em desacreditar a fonte e tentar circunscrever o tema ao campo da “política interna” norte-americana. Para analistas de política externa, porém, a retomada das transmissões reforça o papel da mídia independente em zonas de alto controle estatal da informação e sublinha o contínuo atrito entre duas visões de ordem internacional: uma que prioriza controle e segurança interna; outra que privilegia a circulação transnacional de relatos sobre direitos e abuso.
Em suma, a volta ao ar da Radio Free Asia é um movimento estratégico com implicações que vão além do microfone e do estúdio: é um reposicionamento nas linhas de frente da disputa por narrativas, um lembrete de que a tectônica de poder também se faz por sinais transmitidos através do ar.

















